Por Rodrigo Mercadante
Conheci Nova Olinda antes de conhecer Nova Olinda. Conheci- a primeiro pelos olhos de amorosos de Dinho Lima Flor.Tem jeito melhor?Já tinha ouvido falar da Casa Grande, da Lupita, do Rodrigo, de João Paulo, de Seu José de Eloi, do teatro Violeta Arraes. Imaginava cada detalhe, cada esquina descrita por Dinho.
Essa já é minha terceira visita.
Ao chegar perto da igreja, ouvi a voz de Seu José de Eloi cantando o terço.Dinho já me contara um pouco sobre ele. Há uma história belíssima a seu respeito. Contam que um dia ele costurava um vestido de noiva com as janelas de seu quarto abertas. Costurava e cantava. Cantava pra seus santos. Até que viu o perfil de um homem na escuridão, e mais outro e mais outro. Seu José, amedrontado, não parou de cantar.
Os homens ouviram por algum tempo, e se foram. No dia seguinte, o vestido pronto, ficou sabendo se tratar do bando de Lampião em passagem pela cidade!
Me vi um pouco nele. Como seria eu se tivesse nascido em Nova Olinda há 80 anos atrás? Pensei: acho que eu seria um pouco como Seu José de Eloi. Levaria a vida cantando pra espantar as tristezas de um amor obscuro não correspondido.Cantaria como ele as ladainhas para São Sebastião, santo do qual ele é devoto. Talvez não fosse costureiro,pois me faltam os atributos básicos para desempenhar essa profissão, mas estaria irremediavelmente perto da beleza!
Seu José é timido, quase infantil e se amedronta com coisas corriqueiras. O ohar de uma ternura quase insuportável. Quando pedimos para que ele cantasse para nós, primeiro se envergonhou, tentou se esquivar, mas depois cantou com uma beleza extraordinária.
Lorca diria que Seu José de Eloi tem o Duende.
segunda-feira, 8 de março de 2010
Cia do tijolo visita casa de patativa do Assaré. Parte 1/2
Já estudamos a vida e obra de Patativa do Assaré há mais de 3 anos.Realizamos , a partir dessa pesquisa , 2 espetáculos lindos que nos deram e ainda nos dão alegrias imensas. Essa visita reflete um desses momentos de alegria.Ela aconteceu no dia de nossa apresentação em Assaré, no dia 06/03/2010
domingo, 7 de março de 2010
Montagem Assaré
Chegamos em Assaré no 5 de Março, aniversário do Poeta. Completaria 101 anos
Obviedade
Por Karen Menatti
Diante de toda a obviedade da beleza e cultura do Cariri , às vezes me sinto batendo numa mesma tecla, ingênua e deslumbrada!
Mas é difícil não se emocionar ao ouvir um garoto de nove anos dizer que seu filme preferido é Cine Paradiso "apesar de gostar muito de 'As Bicicletas de BelleVille' também"! Como não se deixar levar por essas sensacões ao ver criancas e adolescentes cuidando da rádio regional, ajudando na montagem e aparatos técnicos do espetáculo, desejando tornarem-se cineastas, arqueólogos, tudo isso enquanto brincam de pega-pega? Problemas existem em qualquer lugar, em qualquer projeto, claro! Mas essa tentativa constante de aprimoramento cultural e democrático não se vê a qualquer hora.
Nova Olinda não se resume às suas casinhas coloridas, seus megafones instalados nos postes para trasmitir a rádio Casa Grande e a Ave Maria Sertaneja todos os dias pontualmente às 18h00. Tem também Seu Zé de Eloia, cantador de benditos, Seu Expedito e sua bolsas, sandálias, cheiro de couro... Suas ruazinhas e ladeiras de pedras, seu clima atemporal, a Fundação Casa Grande...
Tem como não se comover ao ver um casal jovenzinho dando as mãos e chorando juntos ao ouvir "A Morte de Nanã", na linda interpretacão de Dinho Lima Flor? Ou ao cantar "... Faz pena um nortista tão forte e tão bravo, viver como escravo nas terras do sul..." e olhar nos olhos lacrimosos de um homem de chapéu preto e pele marcada de sol?
É, talvez eu seja óbvia e reduntante. Mas é mesmo, exatamente e verdadeiramente assim que me sinto hoje! Paulistana da enchente e do café expresso da Paulista, brasileira do samba, cearense das rendas e de Padre Cícero! Tudo misturado aqui dentro. Redundante e óbio!
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Diário de Bordo Myriam Muniz,
Nova Olinda
sábado, 6 de março de 2010
Seu Geraldo Alencar

Por Rodrigo Mercadante
Conhecemos em Assaré, Seu Geraldo Alencar. Poeta, sobrinho de Patativa, escreveu com ele " Conversas ao pé da Mesa", além de muitos outros livros de poesia. Patativa dizia que há muitos versejadores pelo mundo afora, mas poetas há poucos. Versejador é aquele que, entendendo a forma do Cordel e as regras da rima, é capaz de contar uma história sobre um caso, um acontecimento, fazer uma crítica, etc.... Mas o poeta é outra coisa! O poeta é filósofo, faz filosofia. Patativa dizia que Seu Geraldo Alencar era um verdadeiro poeta.
Tivemos com ele uma conversa breve, mas emocionante. Sentados no chão de areia da quadra onde há pouco apresentáramos nosso espetáculo, ouvimos Seu Geraldo declamar!
Seu Geraldo é um senhor que passou recentemente por um transplante de rins e por isso mesmo é um homem visivelmente frágil. Mas quando começa a declamar seus versos, os olhos brilham, a voz torna-se potente, os braços gesticulam, o corpo conta e canta! Como na retórica antiga, a declamação é parte importantíssima na poesia de tradição oral. Mesmo quando é escrita, como no caso de Seu Geraldo, é feita para ser dita, declamada, é pura performance.
Ele, como seu tio, escreve poesia matuta mas escreve também sonetos na forma clássica. Diz que gosta de "poesia branca" (poesia sem rima) desde que possa compreende-la. Senão não é poesia, é prosa ruim!
A poesia dita "popular" é o belo que tem que poder ser comunicado a todos os ouvintes. Patativa e Seu Geraldo Alencar detestam o hermetismo.
Perguntei a ele o que ele achava de Drummond e Pessoa, e ele respondeu que gostava dos poemas que era capaz de entender.
Prometo postar alguns de seus poemas aqui.
sexta-feira, 5 de março de 2010
Aniversário
Por Rodrigo Mercadante
"Ah, meu Assaré amado
Eu sinto munto a sua sorte.
Tu és dos mais deserdado
Daqui das bandas do norte
...
Não posso te protegê
Nada tenho pra te dar
Mas porém quando eu morrer
Com razão vou te deixa
Uma pequena lembrança
Uma pequenina herança
Em nome do meu amô
O nome de um passarinho
Uma viola de pinho
E os verso de um cantador"
Hoje é dia 5 de março, data em que Patativa do Assaré comemoraria 101 anos.
Assaré é uma pequena cidade que tem sua paisagem atravessada pela poesia de Patativa. Patativa cantou sua pequenez. Ele está em cada esquina, sua imagem e seu retrato estão em cada canto, fragmentos de seus poemas escritos nas placas sob o nome das ruas. Para um artista(e nós artistas estamos sempre duvidando do poder da arte) é muito esclarecedor perceber que a poesia pode mudar até mesmo o desenho urbano de um lugar, inventar- lhe um rosto. As poesias serviam para eternizar os heróis, os poetas gregos cantavam os feitos olímpicos, mas Patativa cantou Assaré.
Ao chegar na cidade e ver as pessoas espalhadas pelas calçadas, levando suas vidas, simplesmente existindo, me pergunto até que ponto elas são conscientes do quanto o fato de Patativa ter existido e escrito poemas tão bons e se consagrado poeta, influencia na sua própria "autoestima", abrilhanta aquele lugar dentro de nós mesmos, que nos permite nos orgulhamos de pertencer à nossa terra natal. Um morador de Assaré tem no caminho da construção de sua subjetividade um pedaço de um verso de Patativa, ainda que dele não conheça nem um poema, nem mesmo um verso....
O corretor de texto colore de amarelo a poesia matuta de Patativa. Ou ele não entende, ou entende por demais.
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