Vamos fazer nosso Concerto de Ispinho e Fulô em Suzano, no dia 13 de Novembro. Festival de Teatro. Muito provavelmente, estaremos também na Escola Livre de Santo André no dia 04 de Dezembro.
Logo logo colocarei os endereços e horários.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Cante lá que eu Canto cá - 08 de outubro - 11h
Gratuito
Apresentação de "Cante lá que eu canto cá"
Cancioneiro popular e poemas de Patativa do Assaré!
Local: Sede da Cia do Feijão
Endereço: R. Doutor Teodoro Baima, 68, do lado do Teatro de Arena
Fone: (11) 3259-9086
Integrantes
Dinho Lima Flor
Karen Menati
Rodrigo Mercadante
Fabiana Barbosa
Aloísio Oliver
Maurício Damasceno
Willian Guedes
Jonathan Silva
Apresentação de "Cante lá que eu canto cá"
Cancioneiro popular e poemas de Patativa do Assaré!
Local: Sede da Cia do Feijão
Endereço: R. Doutor Teodoro Baima, 68, do lado do Teatro de Arena
Fone: (11) 3259-9086
Integrantes
Dinho Lima Flor
Karen Menati
Rodrigo Mercadante
Fabiana Barbosa
Aloísio Oliver
Maurício Damasceno
Willian Guedes
Jonathan Silva
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Tijolos que edificam a alma
Tijolos que edificam a alma...
Por Mariana Zinni
Quando fui ao TUSP assistir ao Concerto de Ispinho e Fulô, da Companhia do Tijolo, não tinha idéia do que ia encontrar lá. Sem expectativas prévias, sem muitas informações sobre o espetáculo, sem saber muito sobre o elenco.
Chegando lá, um rapaz que estava ali pela portaria me chamou a atenção. Tinha uma fisionomia que ma parecia conhecida, mas eu não conseguia me lembrar de onde. Como sou do interior, tenho essa mania de puxar assunto com as pessoas e fui logo perguntando a ele de onde o conhecia. Ele, humildemente, me respondeu seu nome – Rogério Tarifa, disse que era o diretor daquela peça, e que também tinha alguns trabalhos na Companhia São Jorge de Variedades.
Claro, era daí que o conhecia. Já tinha assistido ao espetáculo “O Santo Guerreiro e o Herói Desajustado” duas vezes: uma quando estiveram em Águas de São Pedro, participando de uma mostra de teatro da qual orgulho-me de fazer parte da organização, e outra durante a Virada Cultural Paulista, no pátio do Memorial de Resistência. Ambas, experiências absolutamente incríveis!
Trocamos meia dúzia de palavras, sua figura um tanto tímida, um pouco ansiosa, me despertando uma empatia enorme, pressagiando que o espetáculo me agradaria. Claro que eu já ouvira falar seu nome, como um jovem diretor de teatro extremamente competente, mas, ainda assim, eu não estava preparada para o que encontraria no palco.
Duas horas do melhor espetáculo que assisti na vida!
Um elenco impecável, música envolvente, história apaixonante, tudo isso orquestrado por uma emoção latente. Riso e choro brotam naturalmente da alma, inundada de poesia.
Um orgulho brasileiro, de ser conterrânea de Patativa do Assaré, personagem principal da história contada ali com uma maestria que também nos enche de orgulho... O talento de Dinho Lima Flor, a voz perfeita de Rodrigo Mercadante unida à doce voz de Karen Menatti, um jeito brasileiro de contar histórias brasileiras...
Saí de lá apaixonada! Completamente tomada pela loucura que costuma acompanhar a paixão!
Eu ainda voltaria no dia seguinte, assistir novamente à peça, que também assisti na abertura da mostra São Pedro e Águas em Cena 2010, cheia de orgulho de recebê-los aqui na minha cidade.
Esse episódio, aliás, merece uma história à parte... O pedido emocionado de Alexandre Mate para que a música final fosse cantada novamente, inteira, acompanhada pela platéia foi uma das muitas gratas surpresas que Rogério Tarifa e sua Companhia do Tijolo me trariam na vida.
Não sei por que o nome Companhia do Tijolo, não perguntei. Sei do significado que teve para mim: uma companhia teatral que edifica a alma. Constrói em nós pessoas melhores através da arte, da paixão, da poesia, da música.
Obrigada, Companhia do Tijolo, por construir em mim uma experiência incrível, por permitir que minha alma se ampliasse diante da magnitude do talento de vocês!
Que Dionísio, do alto do Olimpo derrame bênçãos sobre vocês eternamente! E que Patativa bata suas asas sempre trazendo bons ventos!
Por Mariana Zinni
Quando fui ao TUSP assistir ao Concerto de Ispinho e Fulô, da Companhia do Tijolo, não tinha idéia do que ia encontrar lá. Sem expectativas prévias, sem muitas informações sobre o espetáculo, sem saber muito sobre o elenco.
Chegando lá, um rapaz que estava ali pela portaria me chamou a atenção. Tinha uma fisionomia que ma parecia conhecida, mas eu não conseguia me lembrar de onde. Como sou do interior, tenho essa mania de puxar assunto com as pessoas e fui logo perguntando a ele de onde o conhecia. Ele, humildemente, me respondeu seu nome – Rogério Tarifa, disse que era o diretor daquela peça, e que também tinha alguns trabalhos na Companhia São Jorge de Variedades.
Claro, era daí que o conhecia. Já tinha assistido ao espetáculo “O Santo Guerreiro e o Herói Desajustado” duas vezes: uma quando estiveram em Águas de São Pedro, participando de uma mostra de teatro da qual orgulho-me de fazer parte da organização, e outra durante a Virada Cultural Paulista, no pátio do Memorial de Resistência. Ambas, experiências absolutamente incríveis!
Trocamos meia dúzia de palavras, sua figura um tanto tímida, um pouco ansiosa, me despertando uma empatia enorme, pressagiando que o espetáculo me agradaria. Claro que eu já ouvira falar seu nome, como um jovem diretor de teatro extremamente competente, mas, ainda assim, eu não estava preparada para o que encontraria no palco.
Duas horas do melhor espetáculo que assisti na vida!
Um elenco impecável, música envolvente, história apaixonante, tudo isso orquestrado por uma emoção latente. Riso e choro brotam naturalmente da alma, inundada de poesia.
Um orgulho brasileiro, de ser conterrânea de Patativa do Assaré, personagem principal da história contada ali com uma maestria que também nos enche de orgulho... O talento de Dinho Lima Flor, a voz perfeita de Rodrigo Mercadante unida à doce voz de Karen Menatti, um jeito brasileiro de contar histórias brasileiras...
Saí de lá apaixonada! Completamente tomada pela loucura que costuma acompanhar a paixão!
Eu ainda voltaria no dia seguinte, assistir novamente à peça, que também assisti na abertura da mostra São Pedro e Águas em Cena 2010, cheia de orgulho de recebê-los aqui na minha cidade.
Esse episódio, aliás, merece uma história à parte... O pedido emocionado de Alexandre Mate para que a música final fosse cantada novamente, inteira, acompanhada pela platéia foi uma das muitas gratas surpresas que Rogério Tarifa e sua Companhia do Tijolo me trariam na vida.
Não sei por que o nome Companhia do Tijolo, não perguntei. Sei do significado que teve para mim: uma companhia teatral que edifica a alma. Constrói em nós pessoas melhores através da arte, da paixão, da poesia, da música.
Obrigada, Companhia do Tijolo, por construir em mim uma experiência incrível, por permitir que minha alma se ampliasse diante da magnitude do talento de vocês!
Que Dionísio, do alto do Olimpo derrame bênçãos sobre vocês eternamente! E que Patativa bata suas asas sempre trazendo bons ventos!
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Seu Geraldo, a poesia popular e conversas com o público
Aqui cumpro a promessa. Aí vai o debate com Seu Geraldo Alencar. Me emocionei tanto que nem sei....
Essa primeira imagem é de nosso amigo Fabiano de Cristo, músico.
Essa primeira imagem é de nosso amigo Fabiano de Cristo, músico.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Me perdi na poeira das ruas
Karen Menatti
"Por aqui é tanta poeira, tanta terra, que depois de uns quinze minutos você já está com a roupa e cabelos avermelhados e duros,duros ." Ao ouvir esse comentário ( e eu o ouvi diversas vezes durante esse feriado do dia 03 de junho!)respondi " no Concerto também, acaba o espetáculo e a gente espirra tijolo!Eu sei como é morar assim, essa poeira vai impregnando em tudo, na roupa, no nariz...eu sei." Depois que percebi que eu havia respondido com o sentimento e propriedade de quem também vive parte de seu tempo exposto à terra! Como se por alguns instantes eu também vivesse dessa forma.Claro que durante a infância morei em lugares que me levariam a essas lembranças. Mas não me referia a isso,pensava no espetáculo. Será que fazer teatro também é ísso, vivência plena que nos invade como a terra?! Bom,a poeira nos aproximou, os detalhes aproximam sempre! Esses comentários foram feitos em Querência, no Mato Grosso, uma charmosa cidade fundada e povoada na grande maioria por migrantes vindo do sul do Brasil ,descendentes de alemães,italianos...Uma cidade em que a poeira vermelha está em permanente contraste com o céu azul!
Acho que o Concerto é um pedacinho de Assaré,uma "lasquinha" do Caldeirão, um quarteirão de São Paulo (essa última com sua poeira/fuligem preta!),um punhadinho da gente! E enquanto estava por lá , no Mato Grosso , falava por mensagem com Rodrigo que estava em outras terras, as do Crato, respirando a poeira inspiradora!!!
"Tanta coisa que eu tinha a dizer mas eu sumi na poeira das ruas." A poeira agora invade também o novo trabalho do Ventoforte, destrinchando a música de Paulinho da Viola que fará parte do próximo espetáculo. É,tudo se mistura... E durante esse feriado prolongado,sumir na poeira tomou um significado concreto pra mim. Quando a poeira sobe na estrada de terra, ao passar com um carro, por exemplo, tudo desaparece na sua frente como um passe de mágica! Pum!!!Sumiu!!! Um caminhão imenso que transporta soja, um tucano, tudo, tudinho de tudo!Fiquei ali, pequenininha de curiosidade pensando: Se some até caminhão, que dirá o abstrato!!Será? Os amores, as saudades... encontros/desencontros.Será? E se quando a poeira literalmente baixar tudo ainda estiver ali, impregnado?" Aí fica aquela espera da terra baixando...ela confunde os olhos e aguça o desejo de saber o que vem depois quando tudo vai se descortinando diante de você, bem devagar... Algumas vezes, o caminhão e o pássaro haviam mesmo sumido na velocidade das estradas. Outras vezes não!
Poeira.
leva
pára
poeira-depois
poeira-que-foi
Poeira-caminhar
Poeira-não-estar...
"Por aqui é tanta poeira, tanta terra, que depois de uns quinze minutos você já está com a roupa e cabelos avermelhados e duros,duros ." Ao ouvir esse comentário ( e eu o ouvi diversas vezes durante esse feriado do dia 03 de junho!)respondi " no Concerto também, acaba o espetáculo e a gente espirra tijolo!Eu sei como é morar assim, essa poeira vai impregnando em tudo, na roupa, no nariz...eu sei." Depois que percebi que eu havia respondido com o sentimento e propriedade de quem também vive parte de seu tempo exposto à terra! Como se por alguns instantes eu também vivesse dessa forma.Claro que durante a infância morei em lugares que me levariam a essas lembranças. Mas não me referia a isso,pensava no espetáculo. Será que fazer teatro também é ísso, vivência plena que nos invade como a terra?! Bom,a poeira nos aproximou, os detalhes aproximam sempre! Esses comentários foram feitos em Querência, no Mato Grosso, uma charmosa cidade fundada e povoada na grande maioria por migrantes vindo do sul do Brasil ,descendentes de alemães,italianos...Uma cidade em que a poeira vermelha está em permanente contraste com o céu azul!
Acho que o Concerto é um pedacinho de Assaré,uma "lasquinha" do Caldeirão, um quarteirão de São Paulo (essa última com sua poeira/fuligem preta!),um punhadinho da gente! E enquanto estava por lá , no Mato Grosso , falava por mensagem com Rodrigo que estava em outras terras, as do Crato, respirando a poeira inspiradora!!!
"Tanta coisa que eu tinha a dizer mas eu sumi na poeira das ruas." A poeira agora invade também o novo trabalho do Ventoforte, destrinchando a música de Paulinho da Viola que fará parte do próximo espetáculo. É,tudo se mistura... E durante esse feriado prolongado,sumir na poeira tomou um significado concreto pra mim. Quando a poeira sobe na estrada de terra, ao passar com um carro, por exemplo, tudo desaparece na sua frente como um passe de mágica! Pum!!!Sumiu!!! Um caminhão imenso que transporta soja, um tucano, tudo, tudinho de tudo!Fiquei ali, pequenininha de curiosidade pensando: Se some até caminhão, que dirá o abstrato!!Será? Os amores, as saudades... encontros/desencontros.Será? E se quando a poeira literalmente baixar tudo ainda estiver ali, impregnado?" Aí fica aquela espera da terra baixando...ela confunde os olhos e aguça o desejo de saber o que vem depois quando tudo vai se descortinando diante de você, bem devagar... Algumas vezes, o caminhão e o pássaro haviam mesmo sumido na velocidade das estradas. Outras vezes não!
Poeira.
leva
pára
poeira-depois
poeira-que-foi
Poeira-caminhar
Poeira-não-estar...
domingo, 18 de abril de 2010
“Concerto de Ispinho e Fulô”: Patativa por caminhos sonoros.
Por William Guedes
Com razão se pode dizer que certa obra poética é música, com muita razão se pode dizer que é poesia o canto de Patativa do Assaré, o lavrador. Essas verdades, mesmo sendo paradoxais, se avalizam bem, porque a arte tem mesmo muitos caminhos. A arte escapa ao indecifrável sendo fugidia quanto à sua definição e por isso é paradoxal.
Patativa se orgulhava de ser meio cego como Luiz de Camões e era meio analfabeto como seus irmãos de sertão. Paradoxo? Sua imaginação fugidia encontrou alternativas para enxergar muito além dos limites do Cariri e para empreender nada menos que a leitura do mundo.
O Concerto de Ispinho e Fulô é arte teatral no mais profundo sentido do termo, encena Patativa do Assaré acessando muitos caminhos sensíveis, caminhos que têm mesmo cheiro e gosto de cajuína, café e cachaça. Mas o “concerto” envolve o poeta em sua própria musicalidade e é aí que a obra literária reencontra seus “caminhos sonoros”.
Tomo da arte a prerrogativa da liberdade para chamar de “caminhos sonoros” aquilo que a teoria literária designa por “oralidade”. Não se trata de agregar valor poético às minhas observações, e sim de olhar para a oralidade na obra de Patativa através de um prisma, ampliando gradativamente, até o infinito, a abrangência desse conceito.
Tal como é utilizada nos estudos literários, a palavra oralidade é a ferramenta terminológica usada para acusar, numa determinada literatura, a existência de elementos da coloquialidade, que a identifiquem com a cultura oral. É como, numa busca obstinada por alguma concretude, a tentativa de surpreender na escrita entidades que só podem ser ouvidas. Sob uma perspectiva tão restrita, oralidade pode designar a utilização meramente estilística de tais elementos em obras concebidas e observadas na textualidade, ou seja, que mantêm apenas uma relação artificial com a cultura oral.
O termo pode alcançar uma perspectiva mais ampla se considerado desde o ponto de vista da sociologia, de onde parece fundir-se com tradição e, aí sim, abarcar a designação de obras como a de Patativa e outros cantadores ou cordelistas. Dali se contempla uma dimensão presente na gênese da criação, e não somente no conteúdo formal dessa ou daquela obra. Contempla-se a maneira pela qual, de pai pra filho, de boca em boca e através de suportes sensíveis, chegaram até o artista, os contornos formais, procedimentos performáticos, conteúdos sonoros e expressivos que representam, a um só tempo, o substrato de sua arte e seu legado.
Somente para submeter o conceito de oralidade a uma última refração, a psicologia pode emprestar-lhe uma dimensão infinita ao aproximá-lo do conceito de inconsciente coletivo. Isso concebe oralidade como a existência de uma estrutura, formada ao longo de séculos, que formata inconscientemente o entendimento de pessoas pertencentes a uma mesma comunidade e funda a possibilidade de uma comunicação desembaraçada entre o artista e seu público neste ambiente. Tal dimensão ilumina não somente o processo criativo de artistas populares como Patativa, mas também revela algo sobre a possibilidade de depreensão e sobrevida deste tipo de arte, que está baseada em suportes sensíveis tão subjetivos como a memória, e supostamente frágeis, se comparados com o suporte da escrita. A estrutura formal de muitos poemas de Patativa testemunha anacronicamente a sobrevida de procedimentos composicionais parnasianos. Com a diferença de que, agora, sob a rigidez dessas construções poéticas encontram-se, muitas vezes, conteúdos de grande engajamento político. Sua métrica e sua rima ecoam com naturalidade e familiaridade nas vozes e ouvidos por todo o sertão do Cariri, e continuam a reivindicar com isso a sobrevida daqueles conteúdos formais no presente.
Patativa, lá pelos fins de sua vida, já andava meio surdo, como Beethoven. Paradoxo? Ao longo de sua trajetória o poeta já havia forjado na matriz sonora a expressão mais marcante de sua arte. E também aqui os conceitos continuam se estendendo ao infinito, a matriz sonora do poeta extrapola os elementos audíveis. Para quem já não tinha quase ouvidos, como Beethoven, e já não tem sequer corpo, como a própria arte, não há pretensões de concretude. A matriz sonora do poeta sobrevive pairando em Assaré como estrutura, forma e memória, e em São Paulo, paira como uma sonata inteira, em todos os seus paradoxos na forma do Concerto de Ispinho e Fulô.
William Guedes
Com razão se pode dizer que certa obra poética é música, com muita razão se pode dizer que é poesia o canto de Patativa do Assaré, o lavrador. Essas verdades, mesmo sendo paradoxais, se avalizam bem, porque a arte tem mesmo muitos caminhos. A arte escapa ao indecifrável sendo fugidia quanto à sua definição e por isso é paradoxal.
Patativa se orgulhava de ser meio cego como Luiz de Camões e era meio analfabeto como seus irmãos de sertão. Paradoxo? Sua imaginação fugidia encontrou alternativas para enxergar muito além dos limites do Cariri e para empreender nada menos que a leitura do mundo.
O Concerto de Ispinho e Fulô é arte teatral no mais profundo sentido do termo, encena Patativa do Assaré acessando muitos caminhos sensíveis, caminhos que têm mesmo cheiro e gosto de cajuína, café e cachaça. Mas o “concerto” envolve o poeta em sua própria musicalidade e é aí que a obra literária reencontra seus “caminhos sonoros”.
Tomo da arte a prerrogativa da liberdade para chamar de “caminhos sonoros” aquilo que a teoria literária designa por “oralidade”. Não se trata de agregar valor poético às minhas observações, e sim de olhar para a oralidade na obra de Patativa através de um prisma, ampliando gradativamente, até o infinito, a abrangência desse conceito.
Tal como é utilizada nos estudos literários, a palavra oralidade é a ferramenta terminológica usada para acusar, numa determinada literatura, a existência de elementos da coloquialidade, que a identifiquem com a cultura oral. É como, numa busca obstinada por alguma concretude, a tentativa de surpreender na escrita entidades que só podem ser ouvidas. Sob uma perspectiva tão restrita, oralidade pode designar a utilização meramente estilística de tais elementos em obras concebidas e observadas na textualidade, ou seja, que mantêm apenas uma relação artificial com a cultura oral.
O termo pode alcançar uma perspectiva mais ampla se considerado desde o ponto de vista da sociologia, de onde parece fundir-se com tradição e, aí sim, abarcar a designação de obras como a de Patativa e outros cantadores ou cordelistas. Dali se contempla uma dimensão presente na gênese da criação, e não somente no conteúdo formal dessa ou daquela obra. Contempla-se a maneira pela qual, de pai pra filho, de boca em boca e através de suportes sensíveis, chegaram até o artista, os contornos formais, procedimentos performáticos, conteúdos sonoros e expressivos que representam, a um só tempo, o substrato de sua arte e seu legado.
Somente para submeter o conceito de oralidade a uma última refração, a psicologia pode emprestar-lhe uma dimensão infinita ao aproximá-lo do conceito de inconsciente coletivo. Isso concebe oralidade como a existência de uma estrutura, formada ao longo de séculos, que formata inconscientemente o entendimento de pessoas pertencentes a uma mesma comunidade e funda a possibilidade de uma comunicação desembaraçada entre o artista e seu público neste ambiente. Tal dimensão ilumina não somente o processo criativo de artistas populares como Patativa, mas também revela algo sobre a possibilidade de depreensão e sobrevida deste tipo de arte, que está baseada em suportes sensíveis tão subjetivos como a memória, e supostamente frágeis, se comparados com o suporte da escrita. A estrutura formal de muitos poemas de Patativa testemunha anacronicamente a sobrevida de procedimentos composicionais parnasianos. Com a diferença de que, agora, sob a rigidez dessas construções poéticas encontram-se, muitas vezes, conteúdos de grande engajamento político. Sua métrica e sua rima ecoam com naturalidade e familiaridade nas vozes e ouvidos por todo o sertão do Cariri, e continuam a reivindicar com isso a sobrevida daqueles conteúdos formais no presente.
Patativa, lá pelos fins de sua vida, já andava meio surdo, como Beethoven. Paradoxo? Ao longo de sua trajetória o poeta já havia forjado na matriz sonora a expressão mais marcante de sua arte. E também aqui os conceitos continuam se estendendo ao infinito, a matriz sonora do poeta extrapola os elementos audíveis. Para quem já não tinha quase ouvidos, como Beethoven, e já não tem sequer corpo, como a própria arte, não há pretensões de concretude. A matriz sonora do poeta sobrevive pairando em Assaré como estrutura, forma e memória, e em São Paulo, paira como uma sonata inteira, em todos os seus paradoxos na forma do Concerto de Ispinho e Fulô.
William Guedes
segunda-feira, 29 de março de 2010
Debate sobre Patativa do Assaré e sobre o Caldeirão da Santa Cruz do Deserto
Amigos queridos
Renato Dantas - Secretário de Cultura do Crato, ator
Mano Granjeiro - Ator, diretor do SESC Juazeiro
Seu Edésio - Escritor, Cordelista
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