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sexta-feira, 12 de março de 2010

Caminho de Santo



Por Karen Menatti

Hoje, já quase ao cair da tarde, fomos conhecer o Caminho dos Romeiros. Fica no meio do morro onde está localizada a Estátua do Padre Cícero, o seu Memorial, a Igreja... Tudo isso, claro, em Juazeiro do Norte.
É um caminho de terra, aberto, com mato, casinhas aparentemente abandonadas mas repletas daqueles climas de histórias de mistério e muitas, muitas pedras que nos acompanham durante toda a trajetória, ou nós a elas!!! Essas pedras representam as pessoas que não podem estar ali presentes durante a romaria. Por uma coincidência, pois só ficamos sabendo o que carregar essas pedras realmente representava quando estávamos de volta ao Memorial, eu carreguei uma pedrinha comigo e Maurício Damasceno levou duas em suas mãos. Deixamos nossos "amuletos intuitivos" no primeiro altar que encontramos próximo a Igreja onde, conta uma estória, está enterrado o corpo de Padre Cícero. Então, depois de saber de seu significado, em nossa interpretacão saudosa, nossas pedras se transformaram em Jonathan Silva, Fabiana Barbosa e Silvana Marcondes. Companheiros de pesquisa e caminhada de vida e trabalho que não estão presentes nessa viagem por conta de seus rebentos, o que aqui já está e os que estão quase chegando. Todos na bela tarefa de cuidar de novas vidas!
Tivemos que retornar faltava poucos metros pra finalizar nosso ciclo, porque eu, dentro daquele mágico cenário com várias capelinhas brancas em cima de pedra imensas, fiu picada por um marimbondo bem no canto direito de minha boca! Voltei para a realidade instantâneamente!!!!!!
Voltamos já no escuro ao som dos grilos e de todo o universo que povoa uma trilha após às 19h00. 4o minhutos para ir , 40 minutos pra voltar. Caminharia 40 horas, com ou sem dor de picada!!

"... Ave Maria, Mãe de Deus Jesus,
Nos dê força e coragem
Pra carregar a nossa cruz!"

quarta-feira, 10 de março de 2010

Contradicões

por Karen Menatti
(Esse texto foi escrito dia 17)

Num dessses dias fomos visitar o Sítio Caldeirão da Santa Cruz do Deserto. Já sabíamos que era uma comunidade afastada do Crato mas eu não tinha idéia do quanto: uns 40 minutos de carro por uma estrada de terra em meio a morros verdes.Isso tudo depois de pegar uma estrada já fora da cidade. Se hoje em dia chegar ao Caldeirão já é complicado, ficamos pensando Rogério e eu , o quanto deveria ser difícil o acesso na década de 30. E mais, no quanto aquela comunidade realmente representava uma ameca, ou não, aos poderosos e fazendeiros da época, ameaca de falta de mão de obra, enfim. Claro que havia o medo/ignorância daquele pequeno conglomerado tornar-se um novo Canudos. Sabemos que eles não estavam armados mas sabemos também que não eram tolos: na primeira invasão três soldados foram mortos a pedradas e pauladas por alguns moradores locais liderados por Severino que não concordava com o Beato ZéLourenco em receber a invasão sem reagir. Eu me pergunto: Se alguém invadisse meu quintal, minha casa, ameacasse minha família, qual seria minha reacão? E, poderiam alguns membros de uma comunidade pacífica, que prega o " orar e trabalhar", reagir de uma forma dita, mais violenta?
Preservacão, auto-defesa! Contradicões humanas!
Ontem paramos em uma rodoviária no caminho de Sobral a Fortaleza e nos deparamos com uma frase escrita numa de suas paredes que falava sobre união. Não me lembro agora exatamente as palavras mas era uma frase bonita, dessas de efeito que nos chamam a atencão.Qual não foi nossa surpresa quando ao descermos os olhos para verificar o autor , vimos escrito Franco. Franco????Seria mesmo aquele Franco? Comecamos a olhar em volta esperando outra frase de autoria de Adolf!!!!!!Seria mesmo aquele Franco? Sendo ou não, o questionamento "contradicões humans" nos abordou novamente, a mim e ao Rodrigo.
Contradicão que se estende à nossa peca também. Pegando como exemplo a cena da abordagem companhia x Patativa; no espetáculo assumimos,criticamos e até "brincamos"com essa possível e constante ingenuidade que existe quando nos deparamos com pessoas ditas notáveis. Sacamos nossas cameras, botamos nossos sorriso de turista deslumbrado no rosto e ficamos quase sempre um tom acima do que pede a realidade dos fatos. Quase uma excitacão exacerbada. Quantas vezes nós atores não nos comportamos dessa forma durante essa viagem,nos colocando numa lente de aumento? Quantas vezes não nos deparamos com nosso comportamento de "estrangeiro" durante esse trabalho/pesquisa/viagem? Não quer dizer que é certo ou errado, bom ou ruim, não quero juízo de valores, só me pergunto se isso é consciente? Mais uma vez o questionamento de como se colocar, se encaixar ou simpelsmente assumir diferencas diante de fatos e posturas divergentes.
Existe um pensamento japonês que diz que o simpels fato de você observar uma flor ela já é alterada. Que o ato de observar já modifica o ser/objeto observado. Acredito que pode ser porque o objeto observado passa do estado de pura existência não qualitativa para o estado em que é interpretado. Aos olhos de quem vê, claro!!!!!!!! Ganha então, adjetivos, verbo e tudo isso à partir do ser observador.o que mostra que qualquer experiência pessoal tem, contraditóriamente , ressonância transferível!
Contradicões!

domingo, 7 de março de 2010

Obviedade


Por Karen Menatti

Diante de toda a obviedade da beleza e cultura do Cariri , às vezes me sinto batendo numa mesma tecla, ingênua e deslumbrada!
Mas é difícil não se emocionar ao ouvir um garoto de nove anos dizer que seu filme preferido é Cine Paradiso "apesar de gostar muito de 'As Bicicletas de BelleVille' também"! Como não se deixar levar por essas sensacões ao ver criancas e adolescentes cuidando da rádio regional, ajudando na montagem e aparatos técnicos do espetáculo, desejando tornarem-se cineastas, arqueólogos, tudo isso enquanto brincam de pega-pega? Problemas existem em qualquer lugar, em qualquer projeto, claro! Mas essa tentativa constante de aprimoramento cultural e democrático não se vê a qualquer hora.
Nova Olinda não se resume às suas casinhas coloridas, seus megafones instalados nos postes para trasmitir a rádio Casa Grande e a Ave Maria Sertaneja todos os dias pontualmente às 18h00. Tem também Seu Zé de Eloia, cantador de benditos, Seu Expedito e sua bolsas, sandálias, cheiro de couro... Suas ruazinhas e ladeiras de pedras, seu clima atemporal, a Fundação Casa Grande...
Tem como não se comover ao ver um casal jovenzinho dando as mãos e chorando juntos ao ouvir "A Morte de Nanã", na linda interpretacão de Dinho Lima Flor? Ou ao cantar "... Faz pena um nortista tão forte e tão bravo, viver como escravo nas terras do sul..." e olhar nos olhos lacrimosos de um homem de chapéu preto e pele marcada de sol?
É, talvez eu seja óbvia e reduntante. Mas é mesmo, exatamente e verdadeiramente assim que me sinto hoje! Paulistana da enchente e do café expresso da Paulista, brasileira do samba, cearense das rendas e de Padre Cícero! Tudo misturado aqui dentro. Redundante e óbio!

sábado, 6 de março de 2010

Seu Geraldo Alencar


Por Rodrigo Mercadante

Conhecemos em Assaré, Seu Geraldo Alencar. Poeta, sobrinho de Patativa, escreveu com ele " Conversas ao pé da Mesa", além de muitos outros livros de poesia. Patativa dizia que há muitos versejadores pelo mundo afora, mas poetas há poucos. Versejador é aquele que, entendendo a forma do Cordel e as regras da rima, é capaz de contar uma história sobre um caso, um acontecimento, fazer uma crítica, etc.... Mas o poeta é outra coisa! O poeta é filósofo, faz filosofia. Patativa dizia que Seu Geraldo Alencar era um verdadeiro poeta.
Tivemos com ele uma conversa breve, mas emocionante. Sentados no chão de areia da quadra onde há pouco apresentáramos nosso espetáculo, ouvimos Seu Geraldo declamar!
Seu Geraldo é um senhor que passou recentemente por um transplante de rins e por isso mesmo é um homem visivelmente frágil. Mas quando começa a declamar seus versos, os olhos brilham, a voz torna-se potente, os braços gesticulam, o corpo conta e canta! Como na retórica antiga, a declamação é parte importantíssima na poesia de tradição oral. Mesmo quando é escrita, como no caso de Seu Geraldo, é feita para ser dita, declamada, é pura performance.
Ele, como seu tio, escreve poesia matuta mas escreve também sonetos na forma clássica. Diz que gosta de "poesia branca" (poesia sem rima) desde que possa compreende-la. Senão não é poesia, é prosa ruim!
A poesia dita "popular" é o belo que tem que poder ser comunicado a todos os ouvintes. Patativa e Seu Geraldo Alencar detestam o hermetismo.
Perguntei a ele o que ele achava de Drummond e Pessoa, e ele respondeu que gostava dos poemas que era capaz de entender.
Prometo postar alguns de seus poemas aqui.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Aniversário



Por Rodrigo Mercadante

"Ah, meu Assaré amado
Eu sinto munto a sua sorte.
Tu és dos mais deserdado
Daqui das bandas do norte
...
Não posso te protegê
Nada tenho pra te dar
Mas porém quando eu morrer
Com razão vou te deixa
Uma pequena lembrança
Uma pequenina herança
Em nome do meu amô
O nome de um passarinho
Uma viola de pinho
E os verso de um cantador"

Hoje é dia 5 de março, data em que Patativa do Assaré comemoraria 101 anos.
Assaré é uma pequena cidade que tem sua paisagem atravessada pela poesia de Patativa. Patativa cantou sua pequenez. Ele está em cada esquina, sua imagem e seu retrato estão em cada canto, fragmentos de seus poemas escritos nas placas sob o nome das ruas. Para um artista(e nós artistas estamos sempre duvidando do poder da arte) é muito esclarecedor perceber que a poesia pode mudar até mesmo o desenho urbano de um lugar, inventar- lhe um rosto. As poesias serviam para eternizar os heróis, os poetas gregos cantavam os feitos olímpicos, mas Patativa cantou Assaré.
Ao chegar na cidade e ver as pessoas espalhadas pelas calçadas, levando suas vidas, simplesmente existindo, me pergunto até que ponto elas são conscientes do quanto o fato de Patativa ter existido e escrito poemas tão bons e se consagrado poeta, influencia na sua própria "autoestima", abrilhanta aquele lugar dentro de nós mesmos, que nos permite nos orgulhamos de pertencer à nossa terra natal. Um morador de Assaré tem no caminho da construção de sua subjetividade um pedaço de um verso de Patativa, ainda que dele não conheça nem um poema, nem mesmo um verso....
O corretor de texto colore de amarelo a poesia matuta de Patativa. Ou ele não entende, ou entende por demais.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Primeiro dia de viagem - Miryam Muniz

por Rodrigo Mercadante

Essas viagens, longas viagens de trabalho sempre parecem que não vão acontecer até que colocamos nossos pés no Aeroporto, na rodoviária, quando botamos nossos pés na estrada. Chegamos a Guarulhos e em São Paulo chovia, chovia fino.
"Meu São Paulo da garoa
Londres das neblinas finas..."
As transformações, as metamorfoses dos Brasis acontecem dentro dos saguões dos aeroportos, dentro da barriga do avião!Somos Jonas na barriga da baleia!
De São Paulo a Recife, de Recife a Juazeiro o céu se abre, o azul se impõe, as roupas se colorem e as cores se adensam, os rostos que exibiam uma neutralidade polida pouco a pouco dão lugar aos rostos marcados pela tristeza e pelo sol, mas vocacionados para o exercício de uma alegria fácil e expansiva. A cada milha percorrida as palavras se adoçam e passam a correr mais fluídas e fáceis, menos práticas e úteis. O empresário afrouxa a gravata,a mulher importante tira o salto e estica as pernas. Quando pousamos em Juazeiro todo avião falava ao mesmo tempo, se desentedia e milagrosamente se entedia.
O homem polido se esquece do francês e do inglês e revela a bagunça suarenta do homem cordial.
Seu Patativa do Assaré estava sentado na cadeira 1C do voo Recife Juazeiro. Soube imediatamente que estavamos em boas mãos...

Viagem que quer chegar...


Por Karen Menatti

" Viagem que quer chegar...
Velho Chico, verde, nuvem, só!
Sobradinho
Deságua vidas,
Me água."


Assaré em Festa

Desde o dia primeiro Assaré festeja o aniversário de Antonio Gonçalves da Silva. Nessa noite, sob uma imensa e amarelada lua sertaneja, saímos de Juazeiro do Norte em direcão a Assaré, o que significa umas duas horas de estrada. Visistamos o Memorial do Patativa e lá encontramos o seu filho mais velho, Seu Geraldo. Ouvimos as suas histórias especialmente a que relatava orgulhoso, o dia em que recebeu uma homenagem dada a seu pai (incuindo abraço caloroso) do Presidente Lula, e embalados pelo seu timbre de trovão, alguns trechos de poemas paternos.
Terminamos a noite em celebração com toda cidade num parquinho e dois palcos montados na praca principal.
Parquinho de cidade pequena, forró de Santana, mungunzá salgado, a lua, a estrada e uma leve brisa...

"...Teus vento assopra maêro durante os teus mêis di istio
Trazendo um certo tempêro que num faz calor nem faz frio..."