Aqui cumpro a promessa. Aí vai o debate com Seu Geraldo Alencar. Me emocionei tanto que nem sei....
Essa primeira imagem é de nosso amigo Fabiano de Cristo, músico.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Me perdi na poeira das ruas
Karen Menatti
"Por aqui é tanta poeira, tanta terra, que depois de uns quinze minutos você já está com a roupa e cabelos avermelhados e duros,duros ." Ao ouvir esse comentário ( e eu o ouvi diversas vezes durante esse feriado do dia 03 de junho!)respondi " no Concerto também, acaba o espetáculo e a gente espirra tijolo!Eu sei como é morar assim, essa poeira vai impregnando em tudo, na roupa, no nariz...eu sei." Depois que percebi que eu havia respondido com o sentimento e propriedade de quem também vive parte de seu tempo exposto à terra! Como se por alguns instantes eu também vivesse dessa forma.Claro que durante a infância morei em lugares que me levariam a essas lembranças. Mas não me referia a isso,pensava no espetáculo. Será que fazer teatro também é ísso, vivência plena que nos invade como a terra?! Bom,a poeira nos aproximou, os detalhes aproximam sempre! Esses comentários foram feitos em Querência, no Mato Grosso, uma charmosa cidade fundada e povoada na grande maioria por migrantes vindo do sul do Brasil ,descendentes de alemães,italianos...Uma cidade em que a poeira vermelha está em permanente contraste com o céu azul!
Acho que o Concerto é um pedacinho de Assaré,uma "lasquinha" do Caldeirão, um quarteirão de São Paulo (essa última com sua poeira/fuligem preta!),um punhadinho da gente! E enquanto estava por lá , no Mato Grosso , falava por mensagem com Rodrigo que estava em outras terras, as do Crato, respirando a poeira inspiradora!!!
"Tanta coisa que eu tinha a dizer mas eu sumi na poeira das ruas." A poeira agora invade também o novo trabalho do Ventoforte, destrinchando a música de Paulinho da Viola que fará parte do próximo espetáculo. É,tudo se mistura... E durante esse feriado prolongado,sumir na poeira tomou um significado concreto pra mim. Quando a poeira sobe na estrada de terra, ao passar com um carro, por exemplo, tudo desaparece na sua frente como um passe de mágica! Pum!!!Sumiu!!! Um caminhão imenso que transporta soja, um tucano, tudo, tudinho de tudo!Fiquei ali, pequenininha de curiosidade pensando: Se some até caminhão, que dirá o abstrato!!Será? Os amores, as saudades... encontros/desencontros.Será? E se quando a poeira literalmente baixar tudo ainda estiver ali, impregnado?" Aí fica aquela espera da terra baixando...ela confunde os olhos e aguça o desejo de saber o que vem depois quando tudo vai se descortinando diante de você, bem devagar... Algumas vezes, o caminhão e o pássaro haviam mesmo sumido na velocidade das estradas. Outras vezes não!
Poeira.
leva
pára
poeira-depois
poeira-que-foi
Poeira-caminhar
Poeira-não-estar...
"Por aqui é tanta poeira, tanta terra, que depois de uns quinze minutos você já está com a roupa e cabelos avermelhados e duros,duros ." Ao ouvir esse comentário ( e eu o ouvi diversas vezes durante esse feriado do dia 03 de junho!)respondi " no Concerto também, acaba o espetáculo e a gente espirra tijolo!Eu sei como é morar assim, essa poeira vai impregnando em tudo, na roupa, no nariz...eu sei." Depois que percebi que eu havia respondido com o sentimento e propriedade de quem também vive parte de seu tempo exposto à terra! Como se por alguns instantes eu também vivesse dessa forma.Claro que durante a infância morei em lugares que me levariam a essas lembranças. Mas não me referia a isso,pensava no espetáculo. Será que fazer teatro também é ísso, vivência plena que nos invade como a terra?! Bom,a poeira nos aproximou, os detalhes aproximam sempre! Esses comentários foram feitos em Querência, no Mato Grosso, uma charmosa cidade fundada e povoada na grande maioria por migrantes vindo do sul do Brasil ,descendentes de alemães,italianos...Uma cidade em que a poeira vermelha está em permanente contraste com o céu azul!
Acho que o Concerto é um pedacinho de Assaré,uma "lasquinha" do Caldeirão, um quarteirão de São Paulo (essa última com sua poeira/fuligem preta!),um punhadinho da gente! E enquanto estava por lá , no Mato Grosso , falava por mensagem com Rodrigo que estava em outras terras, as do Crato, respirando a poeira inspiradora!!!
"Tanta coisa que eu tinha a dizer mas eu sumi na poeira das ruas." A poeira agora invade também o novo trabalho do Ventoforte, destrinchando a música de Paulinho da Viola que fará parte do próximo espetáculo. É,tudo se mistura... E durante esse feriado prolongado,sumir na poeira tomou um significado concreto pra mim. Quando a poeira sobe na estrada de terra, ao passar com um carro, por exemplo, tudo desaparece na sua frente como um passe de mágica! Pum!!!Sumiu!!! Um caminhão imenso que transporta soja, um tucano, tudo, tudinho de tudo!Fiquei ali, pequenininha de curiosidade pensando: Se some até caminhão, que dirá o abstrato!!Será? Os amores, as saudades... encontros/desencontros.Será? E se quando a poeira literalmente baixar tudo ainda estiver ali, impregnado?" Aí fica aquela espera da terra baixando...ela confunde os olhos e aguça o desejo de saber o que vem depois quando tudo vai se descortinando diante de você, bem devagar... Algumas vezes, o caminhão e o pássaro haviam mesmo sumido na velocidade das estradas. Outras vezes não!
Poeira.
leva
pára
poeira-depois
poeira-que-foi
Poeira-caminhar
Poeira-não-estar...
domingo, 18 de abril de 2010
“Concerto de Ispinho e Fulô”: Patativa por caminhos sonoros.
Por William Guedes
Com razão se pode dizer que certa obra poética é música, com muita razão se pode dizer que é poesia o canto de Patativa do Assaré, o lavrador. Essas verdades, mesmo sendo paradoxais, se avalizam bem, porque a arte tem mesmo muitos caminhos. A arte escapa ao indecifrável sendo fugidia quanto à sua definição e por isso é paradoxal.
Patativa se orgulhava de ser meio cego como Luiz de Camões e era meio analfabeto como seus irmãos de sertão. Paradoxo? Sua imaginação fugidia encontrou alternativas para enxergar muito além dos limites do Cariri e para empreender nada menos que a leitura do mundo.
O Concerto de Ispinho e Fulô é arte teatral no mais profundo sentido do termo, encena Patativa do Assaré acessando muitos caminhos sensíveis, caminhos que têm mesmo cheiro e gosto de cajuína, café e cachaça. Mas o “concerto” envolve o poeta em sua própria musicalidade e é aí que a obra literária reencontra seus “caminhos sonoros”.
Tomo da arte a prerrogativa da liberdade para chamar de “caminhos sonoros” aquilo que a teoria literária designa por “oralidade”. Não se trata de agregar valor poético às minhas observações, e sim de olhar para a oralidade na obra de Patativa através de um prisma, ampliando gradativamente, até o infinito, a abrangência desse conceito.
Tal como é utilizada nos estudos literários, a palavra oralidade é a ferramenta terminológica usada para acusar, numa determinada literatura, a existência de elementos da coloquialidade, que a identifiquem com a cultura oral. É como, numa busca obstinada por alguma concretude, a tentativa de surpreender na escrita entidades que só podem ser ouvidas. Sob uma perspectiva tão restrita, oralidade pode designar a utilização meramente estilística de tais elementos em obras concebidas e observadas na textualidade, ou seja, que mantêm apenas uma relação artificial com a cultura oral.
O termo pode alcançar uma perspectiva mais ampla se considerado desde o ponto de vista da sociologia, de onde parece fundir-se com tradição e, aí sim, abarcar a designação de obras como a de Patativa e outros cantadores ou cordelistas. Dali se contempla uma dimensão presente na gênese da criação, e não somente no conteúdo formal dessa ou daquela obra. Contempla-se a maneira pela qual, de pai pra filho, de boca em boca e através de suportes sensíveis, chegaram até o artista, os contornos formais, procedimentos performáticos, conteúdos sonoros e expressivos que representam, a um só tempo, o substrato de sua arte e seu legado.
Somente para submeter o conceito de oralidade a uma última refração, a psicologia pode emprestar-lhe uma dimensão infinita ao aproximá-lo do conceito de inconsciente coletivo. Isso concebe oralidade como a existência de uma estrutura, formada ao longo de séculos, que formata inconscientemente o entendimento de pessoas pertencentes a uma mesma comunidade e funda a possibilidade de uma comunicação desembaraçada entre o artista e seu público neste ambiente. Tal dimensão ilumina não somente o processo criativo de artistas populares como Patativa, mas também revela algo sobre a possibilidade de depreensão e sobrevida deste tipo de arte, que está baseada em suportes sensíveis tão subjetivos como a memória, e supostamente frágeis, se comparados com o suporte da escrita. A estrutura formal de muitos poemas de Patativa testemunha anacronicamente a sobrevida de procedimentos composicionais parnasianos. Com a diferença de que, agora, sob a rigidez dessas construções poéticas encontram-se, muitas vezes, conteúdos de grande engajamento político. Sua métrica e sua rima ecoam com naturalidade e familiaridade nas vozes e ouvidos por todo o sertão do Cariri, e continuam a reivindicar com isso a sobrevida daqueles conteúdos formais no presente.
Patativa, lá pelos fins de sua vida, já andava meio surdo, como Beethoven. Paradoxo? Ao longo de sua trajetória o poeta já havia forjado na matriz sonora a expressão mais marcante de sua arte. E também aqui os conceitos continuam se estendendo ao infinito, a matriz sonora do poeta extrapola os elementos audíveis. Para quem já não tinha quase ouvidos, como Beethoven, e já não tem sequer corpo, como a própria arte, não há pretensões de concretude. A matriz sonora do poeta sobrevive pairando em Assaré como estrutura, forma e memória, e em São Paulo, paira como uma sonata inteira, em todos os seus paradoxos na forma do Concerto de Ispinho e Fulô.
William Guedes
Com razão se pode dizer que certa obra poética é música, com muita razão se pode dizer que é poesia o canto de Patativa do Assaré, o lavrador. Essas verdades, mesmo sendo paradoxais, se avalizam bem, porque a arte tem mesmo muitos caminhos. A arte escapa ao indecifrável sendo fugidia quanto à sua definição e por isso é paradoxal.
Patativa se orgulhava de ser meio cego como Luiz de Camões e era meio analfabeto como seus irmãos de sertão. Paradoxo? Sua imaginação fugidia encontrou alternativas para enxergar muito além dos limites do Cariri e para empreender nada menos que a leitura do mundo.
O Concerto de Ispinho e Fulô é arte teatral no mais profundo sentido do termo, encena Patativa do Assaré acessando muitos caminhos sensíveis, caminhos que têm mesmo cheiro e gosto de cajuína, café e cachaça. Mas o “concerto” envolve o poeta em sua própria musicalidade e é aí que a obra literária reencontra seus “caminhos sonoros”.
Tomo da arte a prerrogativa da liberdade para chamar de “caminhos sonoros” aquilo que a teoria literária designa por “oralidade”. Não se trata de agregar valor poético às minhas observações, e sim de olhar para a oralidade na obra de Patativa através de um prisma, ampliando gradativamente, até o infinito, a abrangência desse conceito.
Tal como é utilizada nos estudos literários, a palavra oralidade é a ferramenta terminológica usada para acusar, numa determinada literatura, a existência de elementos da coloquialidade, que a identifiquem com a cultura oral. É como, numa busca obstinada por alguma concretude, a tentativa de surpreender na escrita entidades que só podem ser ouvidas. Sob uma perspectiva tão restrita, oralidade pode designar a utilização meramente estilística de tais elementos em obras concebidas e observadas na textualidade, ou seja, que mantêm apenas uma relação artificial com a cultura oral.
O termo pode alcançar uma perspectiva mais ampla se considerado desde o ponto de vista da sociologia, de onde parece fundir-se com tradição e, aí sim, abarcar a designação de obras como a de Patativa e outros cantadores ou cordelistas. Dali se contempla uma dimensão presente na gênese da criação, e não somente no conteúdo formal dessa ou daquela obra. Contempla-se a maneira pela qual, de pai pra filho, de boca em boca e através de suportes sensíveis, chegaram até o artista, os contornos formais, procedimentos performáticos, conteúdos sonoros e expressivos que representam, a um só tempo, o substrato de sua arte e seu legado.
Somente para submeter o conceito de oralidade a uma última refração, a psicologia pode emprestar-lhe uma dimensão infinita ao aproximá-lo do conceito de inconsciente coletivo. Isso concebe oralidade como a existência de uma estrutura, formada ao longo de séculos, que formata inconscientemente o entendimento de pessoas pertencentes a uma mesma comunidade e funda a possibilidade de uma comunicação desembaraçada entre o artista e seu público neste ambiente. Tal dimensão ilumina não somente o processo criativo de artistas populares como Patativa, mas também revela algo sobre a possibilidade de depreensão e sobrevida deste tipo de arte, que está baseada em suportes sensíveis tão subjetivos como a memória, e supostamente frágeis, se comparados com o suporte da escrita. A estrutura formal de muitos poemas de Patativa testemunha anacronicamente a sobrevida de procedimentos composicionais parnasianos. Com a diferença de que, agora, sob a rigidez dessas construções poéticas encontram-se, muitas vezes, conteúdos de grande engajamento político. Sua métrica e sua rima ecoam com naturalidade e familiaridade nas vozes e ouvidos por todo o sertão do Cariri, e continuam a reivindicar com isso a sobrevida daqueles conteúdos formais no presente.
Patativa, lá pelos fins de sua vida, já andava meio surdo, como Beethoven. Paradoxo? Ao longo de sua trajetória o poeta já havia forjado na matriz sonora a expressão mais marcante de sua arte. E também aqui os conceitos continuam se estendendo ao infinito, a matriz sonora do poeta extrapola os elementos audíveis. Para quem já não tinha quase ouvidos, como Beethoven, e já não tem sequer corpo, como a própria arte, não há pretensões de concretude. A matriz sonora do poeta sobrevive pairando em Assaré como estrutura, forma e memória, e em São Paulo, paira como uma sonata inteira, em todos os seus paradoxos na forma do Concerto de Ispinho e Fulô.
William Guedes
segunda-feira, 29 de março de 2010
Debate sobre Patativa do Assaré e sobre o Caldeirão da Santa Cruz do Deserto
Amigos queridos
Renato Dantas - Secretário de Cultura do Crato, ator
Mano Granjeiro - Ator, diretor do SESC Juazeiro
Seu Edésio - Escritor, Cordelista
Crato
por Rodrigo Mercadante
Meu amado Crato
Meu cratinho de açucar....
Que coisa linda poder dizer assim a própria terra!
As pessoas do Crato são doces....
Um aconchego metafísico me envolve...
Meu amado Crato
Meu cratinho de açucar....
Que coisa linda poder dizer assim a própria terra!
As pessoas do Crato são doces....
Um aconchego metafísico me envolve...
sábado, 27 de março de 2010
As cidades pequenas
Há alguns anos , venho costurando o Brasil dentro e fora de mim. Ganho pouco mas viajo muito. Posso me orgulhar de conhecer 18 capitais brasileiras, a maioria delas, razoavelmente bem. Tudo isso fazendo teatro. Nesse momento estou em Sousa , na Paraíba. Uma pequena cidade sem maiores atrativos turísticos. Nem bonita nem feia, mas adorável. Já conheço a Paraíba, estive em João Pessoa e Campina Grande, duas cidades grandes, mas estou encantado com Sousa. É incrível constatar como minhas melhores lembranças estão frequentemente ligadas aos pequenos povoados, às cidadezinhas. São tantas! Assaré e as placas de rua com poemas de Patativa, Nova Olinda e a Casa Grande, Tacaimbó que virou meu lar de empréstimo e lugar que me deu alegria sem preço, Palmeira dos Índios de Graciliano Ramos, Teotônio Villella e a grande feira tomando conta de toda a cidade, Poconé e a cavalhada, Paranataí e um bar de madrugada, Caicó e os anjos saindo da igreja depois da missa de Domingo e a platéia cantando em coro:
" oh mana deixa eu ir,
oh mana eu vou só,
oh mana deixa eu ir para o sertão de Caicó"
Crato, meu amado Crato!
São muitas!
Dentro de 3 dias volto para São Paulo, lugar que escolhi para viver. Volto louco pelo pão de queijo do Coj. Nacional mas adocicado pelos interiores.
sexta-feira, 26 de março de 2010
Católico demais- Cia do Tijolo em Recife e Olinda
por Rodrigo Mercadante
Ontem foi um dia especial.Decidimos ir à oficina do Francisco Brennand no bairro da Várzea no Recife.Já conhecia o espaço, estive lá muitas vezes e tenho que confessar que é um dos lugares que mais amo na vida. Sou completamente apaixonado por aqueles trabalhos! Tão sensuais, ancestrais, brutais! Senti falta do Rogério,queria que ele estivesse conosco. Na volta para o hotel em Boa Viagem havia uma manifestação em uma comunidade próxima ao hotel. Haviam prendido uma senhora, suspeita de ser uma das chefes do tráfico de drogas de lá. A população se revoltou e fechou o acesso a Boa Viagem.Fomos parar em Olinda, mais precisamente no Bar da Noca, conhecido por sua macaxeira com carne de sol e queijo de coalho. Uma coisa dos Deuses. Quando estávamos saindo, demos de cara com uma procissão, daquelas com velas acesas dentro de lâmpadas de papel, homens vestidos de casacos lilázes e um carro com uma cruz atravessada por dentro, representando o corpo morto de Cristo. Era a procissão do encerro. Uma multidão caminhava e cantava nas ruas de Olinda.Me lembrei tanto de Minas!No alto da igreja da Sé, um menino tocava o sino! Entramos na igreja emocionados e, qual não foi a minha surpresa ao ver que Dom Helder Câmara está enterrado alí. O Bispo Vermelho que disse uma vez: " quando dou pão aos pobres, me chamam de santo.Quando pergunto por que os pobres não tem pão, me chamam de comunista"...
Saí de lá tão católico!!!! Acho que sou mesmo uma pessoa fora do sincro. Sempre suspeitei disso. Desde muito cedo , suspeito de toda religião e principalmente dessa espiritualidade pós moderna que acende vela pra todo mundo, e troca a crença no Deus católico por uma crença em qualquer coisa tola que dizem. Sempre detestei a religiosidade e estou com Freud e não abro!Mas, de um tempo pra cá, sinto uma necessidade de fazer as pazes com a tradição de minha família.Não voltar a crer, mas me reconciliar e conviver amigavelmente com essa parte de mim mesmo. Descobri por exemplo, que conheço de cor quase todo o ritual da missa, assim como muitas canções religiosas. Sou fascinado pela vida dos santos e pela arquitetura das igrejas. Acho algumas passagens da Bíblia muito comoventes e amo Tolstoi, Dostoievisk, Bernanos, Adélia Prado, e todos esses escritores que trazem esse Deus tatuado na carne, no verbo e nas letras.
Ai meu Deus! Mas como voltar a me reconhecer católico, logo agora que padres são desmascarados, o papa tem sua reputação abalada por fazer vista grossa ao comportamento desprezível dos pedófilos?
Acho que é justamente por isso! Tenho a tendência de levar à sério aqueles que foram desmascarados. Acho esses mais humanos. Aquele cujas costas suportam a cangalha da perfeição são orgulhosos e soberbos demais. Não podem ensinar nada a ninguém e nem devem faze- lo. São como virgens ensinando a amar.
Não estou defendendo padre nenhum aqui! Se forem mesmo culpados, cadeia neles. Mas, olhar a face humana da igreja, permite que eu goste um bucadinho mais dela. E ambos, eu e ela, tão cheios de pecados humanos, demasiado humanos, talvéz possamos conversar mais amigavelmente.
Ontem foi um dia especial.Decidimos ir à oficina do Francisco Brennand no bairro da Várzea no Recife.Já conhecia o espaço, estive lá muitas vezes e tenho que confessar que é um dos lugares que mais amo na vida. Sou completamente apaixonado por aqueles trabalhos! Tão sensuais, ancestrais, brutais! Senti falta do Rogério,queria que ele estivesse conosco. Na volta para o hotel em Boa Viagem havia uma manifestação em uma comunidade próxima ao hotel. Haviam prendido uma senhora, suspeita de ser uma das chefes do tráfico de drogas de lá. A população se revoltou e fechou o acesso a Boa Viagem.Fomos parar em Olinda, mais precisamente no Bar da Noca, conhecido por sua macaxeira com carne de sol e queijo de coalho. Uma coisa dos Deuses. Quando estávamos saindo, demos de cara com uma procissão, daquelas com velas acesas dentro de lâmpadas de papel, homens vestidos de casacos lilázes e um carro com uma cruz atravessada por dentro, representando o corpo morto de Cristo. Era a procissão do encerro. Uma multidão caminhava e cantava nas ruas de Olinda.Me lembrei tanto de Minas!No alto da igreja da Sé, um menino tocava o sino! Entramos na igreja emocionados e, qual não foi a minha surpresa ao ver que Dom Helder Câmara está enterrado alí. O Bispo Vermelho que disse uma vez: " quando dou pão aos pobres, me chamam de santo.Quando pergunto por que os pobres não tem pão, me chamam de comunista"...
Saí de lá tão católico!!!! Acho que sou mesmo uma pessoa fora do sincro. Sempre suspeitei disso. Desde muito cedo , suspeito de toda religião e principalmente dessa espiritualidade pós moderna que acende vela pra todo mundo, e troca a crença no Deus católico por uma crença em qualquer coisa tola que dizem. Sempre detestei a religiosidade e estou com Freud e não abro!Mas, de um tempo pra cá, sinto uma necessidade de fazer as pazes com a tradição de minha família.Não voltar a crer, mas me reconciliar e conviver amigavelmente com essa parte de mim mesmo. Descobri por exemplo, que conheço de cor quase todo o ritual da missa, assim como muitas canções religiosas. Sou fascinado pela vida dos santos e pela arquitetura das igrejas. Acho algumas passagens da Bíblia muito comoventes e amo Tolstoi, Dostoievisk, Bernanos, Adélia Prado, e todos esses escritores que trazem esse Deus tatuado na carne, no verbo e nas letras.
Ai meu Deus! Mas como voltar a me reconhecer católico, logo agora que padres são desmascarados, o papa tem sua reputação abalada por fazer vista grossa ao comportamento desprezível dos pedófilos?
Acho que é justamente por isso! Tenho a tendência de levar à sério aqueles que foram desmascarados. Acho esses mais humanos. Aquele cujas costas suportam a cangalha da perfeição são orgulhosos e soberbos demais. Não podem ensinar nada a ninguém e nem devem faze- lo. São como virgens ensinando a amar.
Não estou defendendo padre nenhum aqui! Se forem mesmo culpados, cadeia neles. Mas, olhar a face humana da igreja, permite que eu goste um bucadinho mais dela. E ambos, eu e ela, tão cheios de pecados humanos, demasiado humanos, talvéz possamos conversar mais amigavelmente.
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