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quarta-feira, 13 de abril de 2011

Texto escrito para o Festival Assitej 2011 que será realizado em maio na Dinamarca. A Cia do Tijolo fará seis apresentações de seu espetáculo "Concerto de Ispinho e Fulô" em Copenhagen.


Por Fabiana Vasconcelos, Rogério Tarifa e Iná Camargo Costa


Manifesto-Ação

Ser artista é uma possibilidade que todo ser humano tem, independente de ofício, carreira ou arte. É uma possibilidade de desenvolvimento pleno, de plena expressão, de direito à felicidade.
A possibilidade de ir ao encontro de si mesmo, de sua expressão, de sua felicidade, plenitude, liberdade, fertilidade é de todo e qualquer ser humano.
Isso não é um privilégio de artista, é um direito do ser humano - de se livrar de papeis, de exercer suas potencialidades e de se sentir vivo.
Todo mundo pode viver sua expressão sem estar preso a um papel. Não se trata de ser artista ou não, mas de uma perspectiva do ser humano e do mundo. Não se trata só de todos os artistas serem operários, mas também de todos os operários serem artistas. Das pessoas terem relações criativas, férteis e de transformação com o mundo, a realidade, a natureza, a sociedade.
O homem não está condenado a ser só destruidor, consumista, egoísta como a sociedade nos leva a crer. Amir Haddad – diretor brasileiro do histórico grupo Tá Na Rua

O que nos une, além do fato de sermos trabalhadores de teatro e participarmos do Festival Assitej para público jovem na Dinamarca? Será que em algum momento tivemos os mesmos sonhos? As mesmas crises? Que artistas somos? Pra quem fazemos teatro? Que homem é esse? Que tipo de artistas temos que ser para criarmos hoje?
Como diria Paulo Freire, um dos maiores educadores do Brasil e um dos pilares da nossa montagem “Concerto de Ispinho e Fulô” , a leitura do mundo precede a leitura da palavra, ou como escreveu Frei Betto, a cabeça pensa, onde os pés pisam. Fazemos parte da Cia do Tijolo, que tem 11 integrantes, não possui sede e que fez uma opção muito radical: a de ser um grupo de teatro. E para falar da Cia do Tijolo e do teatro que fazemos, nada melhor do que começar com o poeta Patativa do Assaré, figura central deste espetáculo. Patativa do Assaré, agricultor e poeta cearense que só estudou seis meses e que através dos seus poemas ficou mundialmente conhecido. Artista que nunca fugiu das questões importantes para a transformação da sociedade, poeta que nunca se eximiu de se posicionar e apontar as injustiças sociais. Homem que leu o mundo e conseguiu através da arte e do exercício da sua cidadania se tornar um ser consciente. Requisitos imprescindíveis para o teatro e o artista que queremos ser. Nasceu e morreu pobre. A nós não interessava tratar esse artista como gênio em nosso espetáculo, pois tratá-lo como gênio seria banalizar todo o caminho que o levou a ser um artista-agricultor-cidadão com domínio de seu tempo e de seu papel como homem. A sociedade atual, através do capitalismo desenfreado que nos consome até as vísceras, vive vinte quatro horas por dia elegendo celebridades e nos fazendo acreditar de que nada podemos. E que as coisas são assim porque são. Nos retira a história.
Nos coloca o tempo inteiro uma cisão entre a arte e a vida, como se a arte fosse um privilégio para alguns e não uma necessidade e um direito de todos.
As nossas crianças já nascem assim, um pouco órfãs do tempo.
Encontrar e homenagear esse poeta, falecido em 2002, nos fez refletir em todas as camadas possíveis da criação teatral. Estética, forma, conteúdo, relação interna de trabalho, relação com o público, nos fez e nos colocou de frente com a opção que já tínhamos feito há muito tempo, de trabalhar coletivamente, sem hierarquias, acreditando que onze cabeças pensam melhor que uma. Que trabalhar com teatro, dentro de um grupo, de alguma forma, é acreditar em outros paradigmas, é construir um pouco a sociedade que acreditamos.
O espetáculo reage de modo crítico à cultura dominante ao escolher como tema central a poesia de Patativa do Assaré e denuncia as práticas da dominação, inclusive cultural, ao mostrar que um poeta popular registrou um dos horrores da nossa história, que a cultura oficial insiste em ignorar. Finalmente, é uma tentativa de mostrar a força da cultura popular brasileira, com a qual ainda temos muito o que aprender.

E dessa forma, partimos do nada, sem nenhum apoio financeiro, da mesma forma como começam grande parte das montagens de teatro de grupo no Brasil. Como diz a professora Iná Camargo Costa - é uma “ação entre amigos”. No nosso país, os investimentos em educação e cultura ainda são mínimos. Educação e cultura ainda estão longe de serem prioridades.
O que nos impulsionava era a certeza de que naquele momento, era imprescindível contar a história desse poeta, desse artista.
E para revelar os caminhos que esse homem percorreu, algumas opções foram feitas. Não adiantava ficar só no discurso e na poesia desse poeta, deixamos que o conteúdo transformasse a forma, que não só os caminhos do Patativa fossem revelados, mas também os nossos, o do público e da peça. O espetáculo pediu que ele acontecesse numa semi-arena, pois é só numa arena, numa roda, que todos podem se ver, todos podem se ouvir e todos podem juntos construir esse espaço cênico propício que desejávamos para a criação artística.

Muitas Companhias de São Paulo e do Brasil trabalham dessa forma, buscando novas possibilidades de encontro com o público e com a cidade. O palco italiano que ocupa grande parte dos teatros brasileiros e que propõe a priori a separação entre palco e platéia, já não nos interessa tanto. Muito dos grupos buscam um espetáculo que seja permeável, um encontro e uma troca viva entre atores e público.

E assim fazemos teatro aqui, nessa grande metrópole de quase quinze milhões de habitantes. Um pólo para onde migraram pessoas de todas as partes do Brasil e de muitas partes do mundo. Uma cultura urbana, do cimento. Uma cidade apressada, non stop. Aqui o tempo se faz escasso, os jovens têm muitas atividades, muitas horas são perdidas em congestionamentos e pais e filhos acabam, em sua maioria, tendo pouco tempo de fruição conjunta. E é nestes encontros rápidos que se compartilha a emoção, permeada pelos problemas práticos do cotidiano, pelas contas a pagar, pelo cansaço do dia-a-dia. Aqui, fruir a experiência do teatro é quase que uma suspensão no tempo. É dar espaço para a manifestação das emoções mais recônditas. É uma das possibilidades de respiro. E são nesses respiros e nesse agito que fazemos arte, é de onde brota a nossa poesia.
"Concerto de Ispinho e Fulô" não foi especialmente concebida para o público jovem. Acreditamos que justamente por não ser um espetáculo concebido especialmente para platéias jovens é que este espetáculo pode se relacionar de maneira ampla e profunda com este público. "Concerto de Ispinho e Fulô" foi um espetáculo construído para todos os públicos, foi erguido com os tijolos das experiências pessoais de cada um dos integrantes do grupo, e cimentado com a aguda percepção poética da vida com que Patativa do Assaré escreveu seus versos e sua história. E por este motivo, convida cada um que ali está, criança, jovem ou adulto a compartilhar desta emoção, a ser autor de si mesmo, responsável por suas escolhas, um criador.
Abrimos assim, em cena, os nossos processos, os nossos caminhos. Não temos medo de contar as nossas histórias, de dizer quem somos. Somos artistas, de uma pequena companhia de teatro brasileira, que tem 11 integrantes, não possui sede própria e que fez uma escolha radical, fazer teatro de grupo no Brasil. E é aqui que nossos filhos e sonhos nasceram e continuarão a nascer.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Geografia, teatro e poesia: Patativa do Assaré e a Cia do Tijolo

Segundo o geógrafo chinês Yi-Fu-Tuan, professor emérito da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, a noção de lugar se dá pelas relações afetivas que as pessoas estabelecem com determinados espaços. A própria historia de Yi-Fu-Tuan reflete a história de migrantes - cada vez mais comum em nosso mundo pelo aumento da proximidade dos lugares devido ao desenvolvimento dos transportes, mas também a outros fatores sociais, como por exemplo, as guerras e o desemprego. Se hoje são principalmente esses movimentos que geram e incentivam os fluxos migratórios, antes eram os fatores naturais que expulsavam as pessoas dos lugares onde viviam atraídas pela esperança de uma vida melhor em outras terras.
A região do Cariri, localizada no sul do estado do Ceará, na divisa com Pernambuco, notabilizou-se pela migração sempre presente em decorrência da seca. A chapada do Araripe, impedindo a passagem de nuvens carregadas que rumam do litoral atlântico em direção à Amazônia, faz com que essas águas ali permaneçam e irriguem naturalmente o solo. Isso favoreceu o desenvolvimento da agricultura e a prosperidade da região. Entretanto foram inúmeras as secas que ali também ocorreram obrigando os sertanejos, mesmo com o pouco recurso, a ir embora.
A apresentação da Cia. Do Tijolo - paulistana nascida em 2009, filha de paulistanos, pernambucano, mineiro, paranaense, catarinense e capixaba - em Fortaleza reflete essa história e fez arrepiar quem por lá, como eu, teve o privilégio de assistir. Quando a platéia, em coro, ao primeiro acorde começa a cantar a letra e música composta em 1956 por Venâncio, Corumba e Guimarâes - por sinal os dois primeiros eram atores de teatro - mesclando moda de viola e repente, e eternizada por diversos intérpretes da música brasileira, fica difícil conter a emoção, mesmo para mim, que já assisti a dezenas de vezes ao espetáculo. O coro entoando “A vida aqui só é ruim/ Quando não chove no chão/ Mas se chover dá de tudo/ Fartura tem de montão” emociona, pois revela na face de cada um essa herança colonial tão arraigada ainda hoje em nossa cultura e em nossas almas. “O Último pau-de-arara” expressa mais que nenhuma outra, a realidade da seca que, infelizmente, devido à ganância dos homens ricos, ainda hoje persiste.
Essa relação de pertencimento e paixão a um lugar, tão cara em tempos de globalização, perfeitamente expressa nessa canção no refrão “Só deixo meu Cariri/ No último pau-de-arara” é exaltada pela Cia do tijolo em um dos pontos altos do espetáculo, ao convidar o público, um a um, a escrever com giz, na lona de caminhão que reveste o palco, o nome do seu lugar. A sensibilidade dos atores ao contracenar com o público permite ao espectador sentir-se à vontade. Logo a lona está cheia de nomes de cidades diversas, inclusive estrangeiras, revelando no palco as geografias íntimas de um Brasil migrante.
O cenário composto por tijolos, lamparinas, brinquedos baratos, como um pião e um avião de madeira, enxadas, potes, sinos, lousas, carrinho de mão e tecidos de renda sugere uma paisagem pobre, seca, típica do sertão brasileiro e reflete o espaço que permitiu o florescimento da poesia de Patativa, poeta cearense, nascido em Assaré, na região do Cariri. Camponês arraigado à terra, Patativa enxergava o mundo através do seu lugar. Esse pensamento guiou a construção da peça Ispinho e Fulô, nome adotado de um livro de poesias de Patativa pela Cia. Do Tijolo. Cada ator apresenta a sua visão, a sua geografia íntima, do que para ele é o sertão. A fé desesperada, a loucura, a vida de gado, o estranhamento, o abandono...
O mapa do Brasil desenhado no centro do palco não deixa margem a dúvidas: o território da poesia se abre pelas mãos de Patativa ao convidar o grupo de atores a dar uma volta pelo sertão. Tampouco a discussão sobre o poder, tão presente na obra de Patativa, é esquecida. Foram diversos os massacres que ocorreram nesse imenso país continental em nome de uma suposta integração nacional. A história do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto é uma dessas histórias que lembrada em versos pelo poeta é incorporada à dramaturgia. Caldeirão nunca vai acabar pode sugerir duas coisas: a dominação e a repressão sempre estarão presentes, mas também a resistência. O jogo do poder torna-se explícito, e faz dessa peça uma das mais belas poesias acerca do Brasil.

Vicente Torres Tomazi (Vico)

quinta-feira, 31 de março de 2011

De Porto em Porto. De Fulô em Fulô.

De Porto em Porto, de Fulô em Fulô.
Por Fabiana Barbosa

Mais uma vez a Cia do Tijolo põe o pé na estrada. E assim, andando por esses Brasis (assim mesmo, no plural!) vamos contando um pouco de nós, vamos sabendo um pouco dos outros.

Patativa do Assaré falou de si, falou do mundo. Tecendo rimas com o fio dos mais profundos sentimentos, contou estórias comezinhas, engraçadas, tristes, irônicas e construiu para o mundo a imagem de um sertão antes inimaginado. Sertão colorido, sertão seco, seco d'água, sertão que chora, sertão que ri, sertão que tem seus tropeços. Assim também o sertanejo, assim também o ser humano. Com agudeza, Patativa soube enxergar as múltiplas faces de seu povo e de sua terra. Foi um arauto na defesa dos direitos humanos.

Para mim, defender os 'direitos humanos' é defender a possibilidade de sermos diferentes uns dos outros e podermos conviver num mesmo mundo, interagindo e respeitando nossas diferenças. Mas para tanto, é preciso que um conheça efetivamente o outro com quem tem que interagir e compartilhar. Não dá para relacionar-se com uma imagem pré-concebida do outro, uma imagem que certamente não abarca a totalidade do que é este outro. Então a defesa dos 'direitos humanos' é também o exercício de desmascarar o preconceito.

Um tempo atrás recebi este vídeo Chimamanda Adichie: The danger of a single story | Video on TED.com. Neste vídeo a escritora Chimamanda Adichie fala sobre o perigo de uma 'história única', de como uma única história sobre alguém ou sobre algum povo pode construir uma imagem que não traduz todas as múltiplas camadas que compõem este alguém. Não é que esta 'história única' seja uma mentira, mas sua repetição exclusiva por diversas vezes constrói uma persona que não existe. São estas 'histórias únicas' que alimentam os preconceitos. Os pequenos e os grandes preconceitos.

No ano passado, quando inúmeras manifestações preconceituosas e intolerantes pipocaram na internet motivadas pela eleição da nossa presidenta, me lembrei deste vídeo. Os Brasis não se conhecem. Os inúmeros Brasis que existem no Brasil precisam contar mais as suas múltiplas histórias para que essas violências preconceituosas deixem de acontecer. Por isso o "Concerto de Ispinho e Fulô". Para contar e colher histórias Brasil afora. Como um passarinho semeando de porto em porto.

Quem dera eu pudesse estar voando com esses tijolos por aí...

segunda-feira, 14 de março de 2011

Agradecimento de admirador

Obrigado!
Não só pela homenagem
tão pouco pelo teatro
Mas sim pela fala!
Por mostrar esse Brasil
que nem sempre se cala
Por abrir a porta fechada
e por ver que essa pátria
é amada.

Por trazer a esse país o que
é belo e por cantar que o
nosso sangue é verde e
amarelo e por patativar
o meu coração.

Por com arte fazer a ação,
por usar as armas da
investigação,para tentar
construir outra visão.

Por isso para o mundo levar
Mas, mais ainda por fazer
acreditar a jovem ator, que
com arteainda é possível
lutar.

Rodrigo Cristalino Bezerra da Silva
13/03/11

terça-feira, 1 de março de 2011


Olá amigos!



Para aqueles que vão aproveitar o carnaval aqui em Sampa:


Última semana do "Concerto de Ispinho e Fulô".
04,05 e 06 de março
sexta e sábado às 20h30 e domingo às 20h00
Centro Cultural São Paulo - sala Adhemar Guerra (porão)
ingressos: R$20,00





E, nos dias 05, 06 e 13 de março faremos também nosso show "Cante lá que eu canto cá".

SESC Pinheiros, gratuito,sempre às 15h00.Retirar os ingressos ã partir das 14h00 na bilheteria.




Cantando e Declamando:
Rodrigo Mercadante
Dinho Lima Flor
Fabiana Barbosa
Karen Menatti

Sanfonando: Aloísio Oliver
Violando: Marcos Coin
Percussando e tbm na viola caipira: Juh Vieira


Apareçam por lá!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
fotos de Alécio Cézar
por Karen Menatti