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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

O narrador

“A narrativa, que durante tanto tempo floresceu num meio de artesão – no campo, no mar e na cidade –, é ela própria, num certo sentido, uma forma artesanal de comunicação. [...] Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso.”
“Quem escuta uma história está em companhia do narrador; mesmo quem a lê partilha dessa companhia.
“O grande narrador tem sempre suas raízes no povo, principalmente nas camadas artesanais.”

Do narrador Walter Benjamim

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

um ponto de partida

Onde há Genet, leia- se Patativa.

"A literatura salvou Genet. Ele não estava predestinado a ela. Pelo contrario, precisou escolher e trabalhar sua salvação. Sartre conclui que nem a interpretação psicanalítica nem a explicação marxista podem dar conta plena de uma aventura individual em sua totalidade. Só a liberdade fundamenteal de todos nós pode fazê- lo. O gênio, por isso, não é um presente que recebemos do céus: é uma saída que inventamos, principalmente em casos desesperados. Foi o que aconteceu com Genet. Só o gênio literário poderia salva- lo . Livre ele o escolheu."

Agora sim, o texto!

Casa cheia de gente de circo que chegara a cidade a tarde para ficar uma semana e conquistar uma população que há muita tempo não via o ar da graça desse tipo. Primeiramente eu sai com os palhaços do circo pela as ruas anunciando a boa nova, afim de conseguir um convite, já que a disputa era acirrada. Duas vagas gratuitas para a noite da estréia. Palhaço: Hoje tem espetáculo? Nós crianças: Tem se senhor... Palhaço: Ás sete e meia da noite? Nós crianças: Tem se senhor...Olêlê, Olalá... Vou comer maracujá... era mais ou menos assim, Gritei, gritei até perder as forças da garganta. Chegava a hora do palhaço anunciar quem havia ganho, eu não fiz feio, mas desconfiava de alguma coisa, quando veio a surpresa, vaga para entrada, zero, perdi, fiquei em terceiro lugar, atrás de dois piralhos que eram o próprio poder agudo, as gralhas perdiam feio pra eles. Dei de ombros nem te ligo, mas com uma dor profunda em meu coração, perderia a estréia e o pior não teria dinheiro para entrar em toda temporada.
Agora a esperança se voltava para minha casa, porque sabia que os donos do circo iria pedir luz e água, já que minha casa era a mais próxima do circo e a melhor em condições de passar esse tipo de serviço.Mas ao mesmo tempo refletia no caminho, que esperança teria de conseguir ingressos, tinha 20 irmãos, eu era o décimo oitavo na escala familiar, antes de mim, teria os mais velhos que por sua vez, pela a hierarquia estaria na minha dianteira no mínimo umas 10 entradas, ou seja, pelos os meus cálculos levaria uns 10 anos para entrar num circo. Mas como dizem que a esperança é a última que morre e que o destino nos prega surpresas, fiquei atento a essas forças do mistério. Também pensava por ser o filho que mais gostava de ler, cantar, inventar coisas, teria um mínimo de chance apesar da hierarquia. Dito e feito, chego em casa desconsolado e de mãos vazias, vejo os donos do circo conversando com os meus pais, entrei muito devagar para não atrapalhar a conversa e abrir os sentidos:

Dono do Circo: Seu João, o circo é pequeno e hoje nós só podemos dar duas vagas e nos outros dias uma só, já que nós vamos pagar o consumo de água e luz. Meu pai tentava negociar dizendo que era pouco e que tinha muitos filhos, mas o dono do circo não falava,
mas os olhos diziam: E eu com isso, quem mandou fazer muitos filhos, não são meus, nunca participei dessa história. Mas por fim meu pai entendeu que não havia possibilidade de avançar na negociação e logo concordou, então ordenou que fizesse a instalação elétrica. Quanto a água que era um líquido raro e sonoro no sertão, papai ordenou que tirasse só uma vez por dia de um tanque que tínhamos em casa de reserva.
No dia da estréia. Claro que foram meus pais, e nós os filhos sem dinheiro, ficamos lambendo o beiço e fomos para próximo da entrada, esperançosos que viesse um filho de Deus e amigo pagar a nossa entrada, claro que não aconteceu, mas como o circo era rodeado de arames farpados e com brechas e espaços entre um arame e outro, daria para tentar uma entrada nada convencional, com uma pitada de perigo, porque apesar desse espaçamento entre um arame e outro, existia vários guardas de plantão, andando de um lado para outro, exatamente com a função de não deixar ninguém entrar a não ser os pagantes.
Eu nem pensei neles, o desejo era maior que a noção de perigo e logo naquele dia, na data de estréia estaria nada mais, nada menos, um cantor radialista que eu era fã, nem pensei e fui logo tentando passar para o outro lado, quando cheguei nesse lado, quem me esperava era uma mão bem grande, certeira para me mandar para o outro lado, o lado dos pobres. Mas não esmureci, tentei outra vez e outra vez veio a mão, desta vez sem delicadeza, mão de raiva, por ter muito trabalho. Voltei à estaca zero, respirei fundo, sai do lugar que já era manjado e fui a outro lugar, respirei fundo novamente e mergulhei no vão entre os farpados. Para minha surpresa a mão que pegava do outro lado, era a mão grossa e gorda do cantor radialista que tanto admirava e se estava nessa situação de desespero e vergonha era principalmente por causa dele. Essa mão não teve dúvida, me pegou pela a gola da camisa e com ares de déspota, mandou-me mergulhar de volta, eu ali sem entender tamanha maldade, o castelo ruindo, tentando argumentar que estaria lá porque gostava muito dele, e ele,nem te ligo, apertou mais a gola e fez uma pressão no meu corpo, me arremessando para o outro lado, de forma tão brutal, que a camisa que estava sobre o corpo, a própria que tinha deixado para usá-la exatamente no dia mais bonito da minha vida, que seria aquele dia, essa camisa virou trapos rasgados sem possibilidade de concerto. Chorei duas vezes: uma por não entrar e outra pela a camisa, e
percebia que meus olhos, coitados, menos de dois minutos, se tornaria numa nuvem pesada pra ser furada na barriga pelos os raios do céu, para se tornar no maior temporal. Tudo isso pra dizer que já estava se armando outro choro, um terceiro, por saber que quando chegasse em casa, levaria uma grande surra sobre os arranhões de arame farpado. Surra por ter estragado a camisa que minha mãe tinha feito boas economias para comprar. Sai dali fui pra um lugar que ninguém me vira e sozinho tentei pensar numa estratégia para entrar em casa sem minha mãe perceber a camisa e os arranhões, demorei exatamente uma hora para me recompor e voltar para casa, não teve outro jeito, a galinha conhece sua ninhada, foi o que aconteceu, minha mãe percebeu tudo. Levei a surra que imaginara e outras humilhações de irmãos e amigos.
Depois que o circo passou, inventei pra mim aquela conversa que os velhos sempre dizem que é da bíblia, e só mudei as palavras: "Jà que eu não vou até o circo, que o circo venha até a mim," e resolvi inventar o meu circo no quintal de casa, com anuência de minha mãe e com apoio dos meus amigos que tinha achado a idéia muito interessante.
Peguei alguns lenções de minha mãe e outros das mães de alguns amigos, fomos até a mata, cortamos uma madeira alta e forte e cravamos bem no centro do quintal. Passo dois, seria encontrar as meninas para fazer as rumbeiras e passo três seria o texto com as brincadeiras; claro que tudo nasceria de minha cabeça, mas não poderia esquecer que os outros eram importantes. Fizemos tudo isso, arrumamos as meninas da escola da minha rua que estudavam na minha sala de aula e fomos ao planejamento. Tudo planejado já com o dia da estréia: O Tita era o engulidor de fogo, o Acelino era o trapezista, o Tonho era o leão por ser o mais forte de nós, e o Burrego era o macaco por ser ágil, meu papel era ser dono do circo, apresentador e palhaço, ou seja o dono da bola. No dia da estréia demos o último toque de perfeição na arena do quintal e fomos pra rua chamar o público com o clichê dos palhaços: Hoje tem espetáculo? Tem se senhor!!! `Às sete horas da noite? Tem se senhor!!! Ah! esqueci de dizer que o figurino eram trapos e cordas, porque na verdade só tínhamos isso para nos oferecer, a maquiagem era o carvão, fácil de achar por meu pai ser carvoeiro, a música era um monte de latas que pegávamos no lixo e fazíamos um tratamento digno de banda,
Na noite da estréia cantei músicas de outros cantores, agora daquele cantor que amava e copiava, que me expulsou com suas mãos de raiva e desdém; aquele estava morto e enterrado em minha memória musical. Foi um sucesso o circo, mas só conseguimos fazer umas seis vezes, dava muito trabalho para as nossas mães e principalmente para a minha, por ceder seu espaço de roupas e varais.
Todo ano a gente voltava com circo, mas só uma vez por ano, porque às mães da gente não deixavam, diziam que tínhamos que trabalhar, porque circo só criava outro planeta na cabeça.
Se dependesse da gente, era circo o ano inteiro.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008


Olarias: o fim das mais antigas Indústrias do ABC
http://blog.controversia.com.br/2007/02/18/olarias-o-fim-das-mais-antigas-industrias-do-abc/
18 de Fevereiro de 2007 às 16h 08m · Ricardo · Arquivado sob Geral
Ademir Médici
Diário do Grande ABC
Crava-se a pá no barro preto.Rangem as pipas amassando a argila.Bate a forma o oleiro.Fumegam os fornos.(Mário Dal’Mas. Poeta. São Caetano)
* * *
A primeira indústria do Grande ABC vive seus últimos momentos. São asolarias. Restam quatro, duas em Ribeirão Pires e duas em Rio Grande daSerra. Informações orais falam de uma quinta, na divisa de Mauá comRibeirão. Rodamos toda a área e não a localizamos.
O repórter-fotográfico Orlando Filho, do Diário, guiado pelo oleiro JoséValeriano Tertuliano, o Macalé, 68 anos, 48 como oleiro, percorreu asúltimas olarias e fez um ensaio fotográfico de cada uma delas. São asseguintes:
1) Olaria do Zecão, Ouro Fino, Ribeirão Pires.2) Olaria do José Ferreira, estrada do Soma, Ribeirão Pires.3) Olaria do Machado, Sítio Maria Joana, Rio Grande da Serra.4) Olaria do Sítio Maria Joana II, Rio Grande da Serra.
Orlando Filho documentou também ruínas de três outras olarias:1) Olaria do Zecão II, avenida Pedro Ripoli, 157, Barro Branco, RibeirãoPires.2) Olaria da avenida Santa Clara, hoje canteiro de obras da Sabesp, emRibeirão Pires.3) Olaria do Núcleo Santa Cruz, distrito de Riacho Grande, São Bernardo.
Um terceiro trabalho de Orlando Filho: ele fotografou coleções detijolos raros mantidos pelo Museu de São Caetano e pelo Centro dePesquisa do Folclore de São Bernardo. O Museu de São Caetano expõe,permanentemente, a maquete de uma olaria idealizada pelo fotógrafoDirceu da Silva Real, de Santo André, também fotografada - as últimasolarias de São Caetano não sobreviveram à década de 1940.
A faixa que vai de Mauá a Diadema, cruzando Santo André, São Bernardo eSão Caetano, há muito deixou de ter olarias. Uma delas serviu comotemática central e virou cartaz do IV Congresso de História do GrandeABC, realizado em Diadema. O forno já estava desativado quando ocongresso tomou a cidade, em 1996. Hoje até o forno foi demolido -restou a foto do cartaz.
As últimas olarias de Santo André, São Bernardo e Diadema funcionaram,de maneira rudimentar, na área de proteção aos mananciais, de Eldoradoao Pedroso, passando pelo distrito de Riacho Grande. Conseguimoslocalizar ruínas de apenas uma delas, no Núcleo Santa Cruz, adiante daprimeira balsa da represa Billings.
Tínhamos esperança de encontrar ruínas de uma segunda olaria, no Parquedo Pedroso, em Santo André, que há anos estava desativada. A Prefeiturainforma que tais ruínas também foram desmanchadas e seus tijolosaproveitados em obras de manutenção.
Com o fim das olarias, o Grande ABC perde também a figura do oleiro,aquele profissional que madrugava para bater barro, dar forma ao tijolocom as iniciais do nome do dono da olaria. Profissional de múltiplasfunções, como a de pôr o tijolo secando até ser levado para o forno -onde outros oleiros, quando não os mesmos, davam plantão para aguardarmais uma fornada.
Vários fatores explicam o fim das olarias, do econômico ao depreservação do meio ambiente. Há décadas os oleiros-patrões vinham sequeixando da bitributação de impostos para manter o negócio. Maisrecentemente, da virada dos anos 90 para o novo milênio, a pressão dopoder público foi grande. Afinal, as olarias necessitam de lenha,diferentemente da sua concorrente maior, as fábricas de blocos - quehoje imperam também no Grande ABC.
Assim, apenas nas partes mais distantes do Grande ABC, em locais dedifícil acesso, é que sobrevivem as quatro últimas das nossas olarias.
Não foi sempre assim. As duas primeiras olarias do Grande ABC ficavam nocentro de dois núcleos coloniais: São Bernardo e São Caetano. Eram asolarias das fazendas dos monges beneditinos, instaladas na primeirametade do século 18. Eram tocadas por escravos: negros e índios.
A olaria pioneira de São Bernardo, entre uma das variantes do Caminho doMar e o ribeirão dos Meninos, ficava na atual avenida Senador Vergueiro,onde está uma das unidades da rede Carrefour. A olaria de São Caetanolocalizava-se no atual bairro Fundação, igualmente próxima a um rioimportante, o Tamanduateí, no ponto em que ele recebe o ribeirão dosMeninos vindo de São Bernardo.
Tivemos olarias em vias centrais como a Marechal Deodoro, em SãoBernardo, avenida Pereira Barreto, em Santo André, e várzea doTamanduateí, a poucos metros da avenida Goiás. Há 80 anos, estava sendoposta à venda uma olaria localizada na avenida Caminho do Mar, hojebairro Rudge Ramos, conforme anúncio publicado em seguidas edições de1925 pelo semanário O Comércio de São Bernardo:
“Vende-se grande olaria.Acha-se à venda no Caminho do Mar (bairro dos Meninos) uma grandeolaria, cuja produção diária atinge a 5 mil tijolos e enorme fabricaçãode telhas, produtos superiores, barro de primeiríssima ordem. Essapropriedade contém duas boas casas coloniais, fornos especiais, estufas,caminhões, animais.”
Não se sabe quem ficou com a olaria, nem o que foi feito dela.
* Rota da Olaria *
Ademir MédiciDo Diário do Grande ABC
“Passou a mão no tijolo, ele não cantou… não presta”.(Zé Macalé. Oleiro. Ribeirão Pires) Jovens que não conviveram com o augedo funcionamento das olarias no Grande ABC estão abrindo uma empresa -Billings Tour - com passeios voltados a antigos equipamentos artesanaisdo distrito de Riacho Grande, em São Bernardo. São três rotas básicas:Rota do Carvão, Rota dos Portos de Areia e Rota da Olaria.
A Rota da Olaria leva ao Núcleo Santa Cruz e às ruínas de uma olarialocalizada em área pertencente a uma família de japoneses. O acesso podeser a pé, de carro ou de bicicleta. Pelo caminho, uma paisagemexuberante, inclusive de espécies adultas e raras de araucárias e umailha escolhida pelos pássaros para procriação.
Na olaria se aprenderá com os guias - antigos oleiros, de preferência -como é que se fazia tijolos naqueles pátios e fornos, de onde vinha obarro, como os burricos eram postos a trabalhar, como o tijolo secava,cozinhava e era despachado.
Os jovens estudantes têm o apoio de um funcionário da Prefeitura, osão-bernardense Francisco Antonio da Silva, 53 anos, que conheceu muitasolarias e que hoje pertence ao Programa Jovens Reservas da Biosfera, quealém de São Bernardo atinge outros 72 municípios da Grande São Paulo earredores, que formam o chamado cinturão-verde paulista.
Depois dos levantamentos registrados nesta reportagem, bem que a Rota daOlaria de Riacho Grande poderia ser estendida para a área mais afastadade Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, onde localizamos as quatroúltimas olarias em plena atividade. Ali, os estudantes da Billings Tourteriam a assistência de oleiros que ainda fazem tijolos como os seusancestrais. Caso do Zecão.
José Benedito dos Santos, o Zecão, nasceu em Natividade da Serra (SP) em13 de outubro de 1924. Aos 80 anos, dirige a sua olaria em Ouro Fino eacompanha cada passo da produção de um tijolo. O Diário o localizou àbeira da boca de um forno, em pleno processo de produção. Zecão ardiacomo as labaredas que o forno vomitava. Fomos obrigados a pedir para queele saísse dali para que pudesse nos falar.
E Zecão contou a sua grande realização como dono de olaria: cobrir opátio para a proteção dos tijolos e empregados. Agora pode chover emOuro Fino. A produção não pára.
“Sonhei 60 anos com isso. Esse é o sonho da minha vida.” Uma vida dedificuldades para criar os 11 filhos, de um trabalho aprendido com ofinado Daniel Bertoldo, descendente dos primeiros italianos quecolonizaram Ribeirão Pires. Podemos dizer que Zecão, neste 2005, dirigea derradeira grande olaria do Grande ABC, com 20 funcionários, setemáquinas e seis animais.
Há 30 anos, queixavam-se os oleiros de Ribeirão Pires da cargatributária (Olarias vivem fim de grande época, Diário, 24/7/1973). Erameles obrigados a recolher 15% de imposto único sobre minerais e mais15,5% sobre a circulação de mercadorias, sem contar a verba dispensadapara a cobertura de encargos sociais.
Já na primeira metade do século 20, Ribeirão Pires despachou milheirosde tijolos em vagões lotados da estrada de ferro Santos-Jundiaí para aconstrução de bairros inteiros de Santos. Olarias da Vila SacaduraCabral, em Santo André, forneceram os tijolos para a construção doestádio do Pacaembu, em São Paulo, inaugurado em 1940.
O artista plástico Antonio de Assis, de Santo André, desenhou uma olariaque existiu no hoje quase central Jardim Bom Pastor. Octavio Ferrariteve olaria no Parque Galícia, no coração de Diadema. Mantinham olariasna também central avenida Francisco Monteiro, em Ribeirão Pires, asfamílias Sortino, Balarini, Capello, Chiedde, Del Corto, Cordeiro,Gianasi, Bertoldo e Dicieri.
A avenida Taboão, quase esquina com a via Anchieta, abrigou a olaria dafamília Angeli, anos antes da chegada da Willys, antecessora da Ford nolugar.
Os também centrais Jardim Stela e bairro Apiaí, em Santo André, nadivisa com São Bernardo, abrigaram a olaria de Francesco Guelfo.
Hoje quem for à olaria do Zecão, nos fundos de Ouro Fino, vai gastar R$80 pelo milheiro de tijolos; num depósito, o mesmo tijolo vai custarR$150 o milheiro. José Ferreira, também em Ouro Fino, queixa-se daschuvas. O pátio da sua olaria, diferentemente do pátio da olaria doZecão, não é coberto. Por isso, no início deste ano, a sua olariapermaneceu fechada durante dois meses: “Olaria não dá lucro, só faz paracomer”. Na olaria do Zé Ferreira, um milheiro de tijolos custa R$ 40 ouR$ 45, revendido em depósitos por R$ 110.
O melhor, acrescenta Zé Ferreira, é produzir blocos. Mas a atividadeexige mais capital e investimentos em cal, pedriscos e cimento, semcontar os equipamentos. O tijolo trivial usa apenas barro, abundante emqualquer canto.
Restam, além do barro, as recordações, as fotografias, as últimas quatroolarias em funcionamento, as ruínas de outras, o artesanato de homenscomo Dirceu Real. As miniaturas em escala de fornos de olarias e tijolosdo Dirceu são verdadeiras obras de arte.
Há o sonho da Rota da Olaria, em Riacho Grande. A história oral deantigos oleiros. E a lista dos oleiros de 1938, preservada pelo 1ºDistrito Policial de Santo André.
Fica a possibilidade de um exercício: localizar onde estavam aquelasolarias. Pela lista do 1º DP, tínhamos - há 70 anos - os seguintesnúmeros de olarias: Santo André, 15; São Bernardo, 21; São Caetano, 10;Diadema, 6; Mauá, 5; Ribeirão Pires, 39; e Rio Grande da Serra, 4. Umtotal de 100 olarias, segundo registros do 1º DP de Santo André.
Daquelas 100 olarias de 1938, uma funcionava em plena rua Rio Branco, emSão Caetano; uma segunda ao lado do Aramaçan, em Santo André; várias emPiraporinha (Diadema) e Rudge Ramos, então Meninos (São Bernardo).
Nos demoramos sobre essa lista de indústrias de Ribeirão Pires. Nocomeço da reportagem, falamos das duas olarias do Sítio Maria Joana.Pois uma delas já existia em 1938, propriedade de Francisco Ripoli, quevem a ser tio-avô do atual proprietário, José Nicanor Machado da Cunha.
Uma empresa familiar raríssima que não pode e não deve morrer.
Os dentes

Brancos como a neve eram os dentes de Mariana. Dizem que uma boca há séculos possui 32 dentes. Dentes de carne não podem morder o osso. Uma gengiva gelada não aquece os lábios do companheiro febril. Camadas inteiras de uma vida morrem ao engolir o que não foi dito. Às vezes a fala não fala, a fala só pode ser rompida através do misero som que os ouvidos captam sem a vibração das partículas de ar.
No vácuo um dente não faz barulho, mas uma dentadura é capaz de amassar o chão, se esse for de barro. Como de barro são as pegadas do pequeno. Lírios de leite foram compactados na feitura daqueles que mordem, mas o gosto do que se bebe não tem a ver com o suco materno. Engole-se aquilo que se come nada mais. Um dia comi morango. Comi boi. Comi arroz. Comi traças. Comi umidade. Comi sozinho. Não reparti a migalha que não fazia mais parte do meu vocabulário. Enterrei perto da superfície o que não cabia mais. Os dentes não souberam o que havia sido escondido. Troco àquilo que cabe no espaço onde vai ser colocado. Troco um sonho por outro. Troco um dente por outro dente. Troco o sorriso com dente ou sem dente. Uma vez eu, uma vez o outro, uma vez eu com dentes, outra vez eu sem dentes. Se fecho os olhos rapidamente e vejo que todos os dentes são de ouro, logo abro e tenho a certeza que não desejo essa melhora aos que possuem cabelo. Às vezes é preciso morder a presa com o que se tem. Todos os dentes cabem em todas as bocas, todas as bocas cabem em todos alimentos. Todos as cabeças descansam no mesmo travesseiro. Todos olhos se entendem ao serem vistos. Todos os cílios se fecham um dia. Ninguém morre sem ter vivido.

Rogério Tarifa - 2004-11-08