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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Entrevista - Programa Entrelinhas

Programa Entrelinhas da TV Cultura, especial sobre Patativa do Assaré, exibido em 31 de Agosto de 2009.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Matéria Publicada no Estadão em 20 de Agosto de 2009, no Caderno 2

Retrato de um poeta e seu tempo
Concerto de Ispinho e Fulô escapa do laudatório ao falar de Patativa do Assaré

Beth Néspoli

"A simples visão da cenografia que toma todo o centro da sala entre as duas fileiras de cadeiras laterais reservadas ao público já desperta a sensação de que se verá um belo espetáculo. Vários objetos rústicos, como tijolos artesanais, lamparinas, chapéus de couro, flores coloridas de papel, dezenas de sinos de tropeiro, desses que ficam pendurados no pescoço do gado, espalham-se pelo chão da sala no 3º andar do Sesc da Avenida Paulista. Sobre o piso forrado de papel pardo, esses objetos formam uma atraente cartografia, com nomes como Cariri e Assaré escritos a giz."

Para ler a matéria completa, acesse: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090820/not_imp421674,0.php

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Patativa, Paulo Freire e a Cia. do Tijolo

Patativa, Paulo Freire, e a Cia. do Tijolo
Por Rodrigo Mercadante

A idéia de fundar a Cia. do Tijolo surgiu do desejo de Dinho Lima Flor de criar um trabalho sobre a vida e a obra do poeta Patativa do Assaré. Juntamo-nos a ele Fabiana Barbosa e eu. De um primeiro contato com os poemas nasceu o show “Cante Lá que eu Canto Cá”, uma espécie de sarau literário e musical. Mas não foi o bastante. Na medida em que nos aprofundávamos no universo do poeta, percebíamos que o show não era o suficiente para abarcar a complexidade da obra e, principalmente, não revelava ao público a singularidade da trajetória de vida desse agricultor, poeta e cantador.


Qual seria a melhor forma de levar Patativa aos palcos? Era preciso que se encontrasse um ponto de vista, um ponto de partida, para podermos LER Patativa e encará-lo sem nos perdermos na infinidade de assuntos dos quais ele trata ou sem cairmos na tentação de simplesmente dramatizar sua biografia.


A luz veio numa conversa entre mim, o diretor Ilo Krugli e a educadora Rita Rozeno em Theotônio Villela, cidade com um baixíssimo índice de desenvolvimento humano localizada no interior de Alagoas. Conversávamos sobre o fato de o Brasil possuir um dos maiores índices de analfabetismo funcional do mundo e nos assombrávamos com a contradição de que isso acontece no país onde o grande educador Paulo Freire desenvolveu sua pedagogia do oprimido.

A conexão se fez imediatamente em minha cabeça. Patativa foi um homem que estudou só seis meses e desenvolveu extraordinariamente em si as possibilidades poéticas, práticas, reflexivas no manejo da língua. Qual caminho percorreu Antônio Gonçalves da Silva até alçar vôo e chegar à Patativa? Talvez as concepções de Paulo Freire sobre o conhecimento e sobre o ser humano nos desse um norte para a leitura e para a análise da obra do mestre cearense.


E é aí que se explica o nome da Cia. do Tijolo. O primeiro passo no processo de alfabetização do método criado por Paulo Freire é o levantamento do universo vocabular dos grupos com que se trabalha; são palavras ligadas às experiências existenciais, profissionais e políticas dos participantes dos diferentes grupos. Foi assim que em Brasília, cidade ainda em construção nos anos 60, surgiu entre os estudantes de Paulo Freire a palavra TIJOLO.


Para essa empreitada, a aventura de criar um trabalho em conjunto, vieram Rogério Tarifa, Karen Menatti, Aloísio Oliver, Maurício Damasceno, Jonathan Silva e Thais Pimpão. Com eles, as histórias pessoais e profissionais de cada um. Vieram as experiências com Ventoforte, Casa Laboratório e Cia. São Jorge. Vieram Tacaimbó, Belo Horizonte, Maringá, Vitória e São Paulo. E hoje vivemos a aventura de construir o que é a Cia. do Tijolo. Por enquanto, somos um recém nascido que tateia e deseja. TIJOLO é nossa ‘palavra geradora’, nosso princípio de orientação na construção deste “Concerto de Ispinho e Fulô”.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

O narrador

“A narrativa, que durante tanto tempo floresceu num meio de artesão – no campo, no mar e na cidade –, é ela própria, num certo sentido, uma forma artesanal de comunicação. [...] Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso.”
“Quem escuta uma história está em companhia do narrador; mesmo quem a lê partilha dessa companhia.
“O grande narrador tem sempre suas raízes no povo, principalmente nas camadas artesanais.”

Do narrador Walter Benjamim

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

um ponto de partida

Onde há Genet, leia- se Patativa.

"A literatura salvou Genet. Ele não estava predestinado a ela. Pelo contrario, precisou escolher e trabalhar sua salvação. Sartre conclui que nem a interpretação psicanalítica nem a explicação marxista podem dar conta plena de uma aventura individual em sua totalidade. Só a liberdade fundamenteal de todos nós pode fazê- lo. O gênio, por isso, não é um presente que recebemos do céus: é uma saída que inventamos, principalmente em casos desesperados. Foi o que aconteceu com Genet. Só o gênio literário poderia salva- lo . Livre ele o escolheu."

Agora sim, o texto!

Casa cheia de gente de circo que chegara a cidade a tarde para ficar uma semana e conquistar uma população que há muita tempo não via o ar da graça desse tipo. Primeiramente eu sai com os palhaços do circo pela as ruas anunciando a boa nova, afim de conseguir um convite, já que a disputa era acirrada. Duas vagas gratuitas para a noite da estréia. Palhaço: Hoje tem espetáculo? Nós crianças: Tem se senhor... Palhaço: Ás sete e meia da noite? Nós crianças: Tem se senhor...Olêlê, Olalá... Vou comer maracujá... era mais ou menos assim, Gritei, gritei até perder as forças da garganta. Chegava a hora do palhaço anunciar quem havia ganho, eu não fiz feio, mas desconfiava de alguma coisa, quando veio a surpresa, vaga para entrada, zero, perdi, fiquei em terceiro lugar, atrás de dois piralhos que eram o próprio poder agudo, as gralhas perdiam feio pra eles. Dei de ombros nem te ligo, mas com uma dor profunda em meu coração, perderia a estréia e o pior não teria dinheiro para entrar em toda temporada.
Agora a esperança se voltava para minha casa, porque sabia que os donos do circo iria pedir luz e água, já que minha casa era a mais próxima do circo e a melhor em condições de passar esse tipo de serviço.Mas ao mesmo tempo refletia no caminho, que esperança teria de conseguir ingressos, tinha 20 irmãos, eu era o décimo oitavo na escala familiar, antes de mim, teria os mais velhos que por sua vez, pela a hierarquia estaria na minha dianteira no mínimo umas 10 entradas, ou seja, pelos os meus cálculos levaria uns 10 anos para entrar num circo. Mas como dizem que a esperança é a última que morre e que o destino nos prega surpresas, fiquei atento a essas forças do mistério. Também pensava por ser o filho que mais gostava de ler, cantar, inventar coisas, teria um mínimo de chance apesar da hierarquia. Dito e feito, chego em casa desconsolado e de mãos vazias, vejo os donos do circo conversando com os meus pais, entrei muito devagar para não atrapalhar a conversa e abrir os sentidos:

Dono do Circo: Seu João, o circo é pequeno e hoje nós só podemos dar duas vagas e nos outros dias uma só, já que nós vamos pagar o consumo de água e luz. Meu pai tentava negociar dizendo que era pouco e que tinha muitos filhos, mas o dono do circo não falava,
mas os olhos diziam: E eu com isso, quem mandou fazer muitos filhos, não são meus, nunca participei dessa história. Mas por fim meu pai entendeu que não havia possibilidade de avançar na negociação e logo concordou, então ordenou que fizesse a instalação elétrica. Quanto a água que era um líquido raro e sonoro no sertão, papai ordenou que tirasse só uma vez por dia de um tanque que tínhamos em casa de reserva.
No dia da estréia. Claro que foram meus pais, e nós os filhos sem dinheiro, ficamos lambendo o beiço e fomos para próximo da entrada, esperançosos que viesse um filho de Deus e amigo pagar a nossa entrada, claro que não aconteceu, mas como o circo era rodeado de arames farpados e com brechas e espaços entre um arame e outro, daria para tentar uma entrada nada convencional, com uma pitada de perigo, porque apesar desse espaçamento entre um arame e outro, existia vários guardas de plantão, andando de um lado para outro, exatamente com a função de não deixar ninguém entrar a não ser os pagantes.
Eu nem pensei neles, o desejo era maior que a noção de perigo e logo naquele dia, na data de estréia estaria nada mais, nada menos, um cantor radialista que eu era fã, nem pensei e fui logo tentando passar para o outro lado, quando cheguei nesse lado, quem me esperava era uma mão bem grande, certeira para me mandar para o outro lado, o lado dos pobres. Mas não esmureci, tentei outra vez e outra vez veio a mão, desta vez sem delicadeza, mão de raiva, por ter muito trabalho. Voltei à estaca zero, respirei fundo, sai do lugar que já era manjado e fui a outro lugar, respirei fundo novamente e mergulhei no vão entre os farpados. Para minha surpresa a mão que pegava do outro lado, era a mão grossa e gorda do cantor radialista que tanto admirava e se estava nessa situação de desespero e vergonha era principalmente por causa dele. Essa mão não teve dúvida, me pegou pela a gola da camisa e com ares de déspota, mandou-me mergulhar de volta, eu ali sem entender tamanha maldade, o castelo ruindo, tentando argumentar que estaria lá porque gostava muito dele, e ele,nem te ligo, apertou mais a gola e fez uma pressão no meu corpo, me arremessando para o outro lado, de forma tão brutal, que a camisa que estava sobre o corpo, a própria que tinha deixado para usá-la exatamente no dia mais bonito da minha vida, que seria aquele dia, essa camisa virou trapos rasgados sem possibilidade de concerto. Chorei duas vezes: uma por não entrar e outra pela a camisa, e
percebia que meus olhos, coitados, menos de dois minutos, se tornaria numa nuvem pesada pra ser furada na barriga pelos os raios do céu, para se tornar no maior temporal. Tudo isso pra dizer que já estava se armando outro choro, um terceiro, por saber que quando chegasse em casa, levaria uma grande surra sobre os arranhões de arame farpado. Surra por ter estragado a camisa que minha mãe tinha feito boas economias para comprar. Sai dali fui pra um lugar que ninguém me vira e sozinho tentei pensar numa estratégia para entrar em casa sem minha mãe perceber a camisa e os arranhões, demorei exatamente uma hora para me recompor e voltar para casa, não teve outro jeito, a galinha conhece sua ninhada, foi o que aconteceu, minha mãe percebeu tudo. Levei a surra que imaginara e outras humilhações de irmãos e amigos.
Depois que o circo passou, inventei pra mim aquela conversa que os velhos sempre dizem que é da bíblia, e só mudei as palavras: "Jà que eu não vou até o circo, que o circo venha até a mim," e resolvi inventar o meu circo no quintal de casa, com anuência de minha mãe e com apoio dos meus amigos que tinha achado a idéia muito interessante.
Peguei alguns lenções de minha mãe e outros das mães de alguns amigos, fomos até a mata, cortamos uma madeira alta e forte e cravamos bem no centro do quintal. Passo dois, seria encontrar as meninas para fazer as rumbeiras e passo três seria o texto com as brincadeiras; claro que tudo nasceria de minha cabeça, mas não poderia esquecer que os outros eram importantes. Fizemos tudo isso, arrumamos as meninas da escola da minha rua que estudavam na minha sala de aula e fomos ao planejamento. Tudo planejado já com o dia da estréia: O Tita era o engulidor de fogo, o Acelino era o trapezista, o Tonho era o leão por ser o mais forte de nós, e o Burrego era o macaco por ser ágil, meu papel era ser dono do circo, apresentador e palhaço, ou seja o dono da bola. No dia da estréia demos o último toque de perfeição na arena do quintal e fomos pra rua chamar o público com o clichê dos palhaços: Hoje tem espetáculo? Tem se senhor!!! `Às sete horas da noite? Tem se senhor!!! Ah! esqueci de dizer que o figurino eram trapos e cordas, porque na verdade só tínhamos isso para nos oferecer, a maquiagem era o carvão, fácil de achar por meu pai ser carvoeiro, a música era um monte de latas que pegávamos no lixo e fazíamos um tratamento digno de banda,
Na noite da estréia cantei músicas de outros cantores, agora daquele cantor que amava e copiava, que me expulsou com suas mãos de raiva e desdém; aquele estava morto e enterrado em minha memória musical. Foi um sucesso o circo, mas só conseguimos fazer umas seis vezes, dava muito trabalho para as nossas mães e principalmente para a minha, por ceder seu espaço de roupas e varais.
Todo ano a gente voltava com circo, mas só uma vez por ano, porque às mães da gente não deixavam, diziam que tínhamos que trabalhar, porque circo só criava outro planeta na cabeça.
Se dependesse da gente, era circo o ano inteiro.